quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

[Lady Trotsky Resenha] Drácula - Bram Stoker

Título: Drácula
País: Inglaterra
Autor (a): Bram Stoker
Ano: 1897
Classificação: https://1.bp.blogspot.com/-zDdo-Rt0Er8/Xmrs0wjvBdI/AAAAAAAAMLk/9qhhhyAD2ysL77kXD7mLgq-nz8CQbxsGgCPcBGAYYCw/s1600/Cinco%2B%252B%2BFavorito.jpg

Sinopse: Um pavoroso embate entre bem e mal que seduz milhares de leitores há mais de um século. Fonte de inúmeras adaptações para telas e palco, inspiração para músicos, escritores e artistas de todas as áreas, Drácula é um ícone incontestável e obra máxima de Bram Stoker. De um lado o conde Drácula – o mais famoso vampiro da literatura. De outro, um grupo unido e decidido a caçá-lo: Jonathan e Mina Harker, o médico holandês Van Helsing e seus amigos.

 


Um romance de 1897 ainda hoje chama atenção mesmo todo mundo conhecendo a trama de cor e salteado mesmo nunca tendo lido o livro. Afinal, quem até hoje não ouviu falar do grande “rei dos vampiros”, Drácula? Se nunca ouviu, siga em frente com a leitura da resenha. Se ouviu, mas não leu o livro, acredite, você vai se interessar por ele quando chegar ao fim desse texto.
Drácula, publicado em 26 de maio de 1897, ou seja, há 120 anos, não é um livro para exatamente qualquer leitor, ainda mais quando as coisas mudaram muito em todos esses anos. Por que?
É um livro longo (as edições variam entre 370 e 500 páginas, dependendo da editora e da brochura) embora não muito complicado, porém, é preciso ter paciência com alguns pontos que hoje não são tão atraentes para os leitores apesar de eu particularmente gostar. Quais seriam eles?

“A população da Transilvânia é formada por quatro nacionalidades distintas: ao sul, os saxões, aos quais se misturam também os valáquios, que são descendentes dos dácios. A oeste encontram-se os magiares e, finalmente, nas regiões norte e leste, os tchecos. Estou me dirigindo justamente à região habitada por esses últimos, os quais alegam ser descendentes de Átila e os hunos. Talvez haja uma certa verdade nessa pretensão pois, quando os magiares conquistaram o país, ainda no decorrer do século XI, já encontraram esse povo ali fixado. Lembro-me de ter lido a afirmação de que todas as superstições existentes neste mundo se concentram na ferradura dos Cárpatos, como se esse ponto representasse o centro do vórtice das mais férteis imaginações. Se essa suposição corresponder à verdade, então minha permanência em tal ambiente se tornará sumamente interessante. (Lembrete: preciso perguntar ao conde tudo sobre essa teoria.)”
A narrativa em forma de cartas, diários, reportagens, mensagens taquigráficas e outras formas de comunicação usadas na época que às vezes pode dar aquela cansada básica em quem está lendo. Porém, é justamente isso a tornar o livro tão rico no quesito narrativa, pois conhecemos o ponto de vista do Dr. John (Jack) Seward, de Jonathan Harker e sua noiva, depois esposa, Wilhelmina Murray (Harker), carinhosamente chamada de Mina, além de um único capítulo do diário de Lucy Westenra, melhor amiga dela, vitimada durante a trama. Sei que soa como spoiler, mas duvido alguém não saber disso. Ademais, essa cena dificilmente não aparece nas adaptações cinematográficas e teatrais do livro. Ainda, a narração dos fatos reforça a sobrenaturalidade da trama embora eles só venham a descobri-la na metade do livro, o que acho uma sacada genial não importa quantas vezes eu releia. (Até hoje foram quatro.) Além, é claro, de ser impossível não admirar a extensa pesquisa feita por Stoker para dar maior veracidade à história.
Apesar de termos apenas esses pontos de vista, eles conseguem passar os sentimentos de outros personagens do livro, como o professor Abraham Van Helsing, o responsável por revelar a nefanda verdade aos outros personagens e Arthur Holmwood, o noivo de Lucy e um dos que se vê forçado pelas circunstâncias a acreditar que há coisas além da compreensão humana.

“Hoje o dia está e, enquanto escrevo, o sol se oculta por trás de espessas nuvens – cúmulos-nimbus – bem acima de Ketlleness. Tudo se acha impregnado do mesmo tom acinzentado, exceto a relva verdejante, que mais parece uma faiscante esmeralda em meio à ausência de cor.
São cinzentos os rochedos e as nuvens, ainda aureoladas pelos raios solares e suspensas sobre as vagas de um mar também cinzento e que, por sua vez, vai se confundir com os cinzentos recortes arenosos das pontas litorâneas. As ondas rolam incessantemente sobre os baixios e recifes com estrondoso fragor, que parece ficar abafado pela névoa vinda do quebra-mar.”
Sendo essa a parte que mostra, com um bom número de descrições e diálogos muito interessantes entre Helsing e Seward, o contraste entre a crença no sobrenatural e o avanço da ciência que torna possível desmistificar alguns fenômenos que muito antigamente as pessoas tratavam por eventos sobrenaturais. Sendo um exemplo justamente o mito do vampiro, meu tema de TCC em 2011. Apenas pensem, baseados no que escrevi há pouco: e se fossem vocês que estivessem nessa situação, como agiriam? Se soubessem que alguém amado por vocês está virando um monstro chupador de sangue, o que fariam?
No caso de Drácula, os personagens não pensam duas vezes em exterminar Lucy por mais que a adorem, porém, estamos falando de um livro produzido ainda na Era Vitoriana, onde imperava um código moral hoje considerado um absurdo inacreditável. Ou seja, a antes pura e casta senhorita Westenra agora era um ser maligno e luxurioso cuja existência era uma afronta aos princípios da natureza (isso soa familiar?), assim como o vampiro Drácula o é.

“Todos têm sido tão gentis comigo! Sem sombra de dúvida, o prof. Van Helsing já me conquistou! Não consigo entender, porém, porque as flores lhe provocaram tamanha ansiedade. No entanto, algum motivo deve existir, pois desde então elas já transmitem uma sensação de conforto e tranquilidade. Sinto que não terei mais medo de ficar sozinha à noite. Poderei me recolher para dormir, sem nenhum temor. O impacto das asas de encontro a minha janela já não me assusta. Ah, finalmente darei um fim à interminável luta que travava contra o sono. Adeus agonia provocada pela insônia e o sofrimento causado pelos infindáveis fantasmas da imaginação.”
O personagem título, sem mentira alguma, é o grande vilão da história e podem ter feito todas as adaptações possíveis e imagináveis, que isso não vai mudar, na essência. O Conde Drácula é maligno, manipulador, inescrupuloso e não hesita em prejudicar meio mundo em nome daquilo que deseja: saciar sua sede de sangue em um local cheio de potenciais vítimas. No entanto, ele sofre do mal da soberba e isso pode custar a ele um preço bem alto, pois por mais que ele possa ter o luxo de viver muito e esperar, isso não quer dizer que a humanidade, no caso, os protagonistas humanos do livro, sejam tolos o suficiente para ficar parados esperando acontecer o pior.

“Com sua chave de fenda, o professor removeu a tampa do caixão. Atento a cada movimento e muito pálido, Arthur observava tudo silenciosamente. Assim que a tampa foi retirada, ele deu um passo à frente. Evidentemente não sabia da existência de um invólucro de chumbo ou talvez não tivesse pensado sobre esse detalhe. Ao ver o extenso rasgo aberto na lâmina do revestimento, uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto, mas foi apenas uma reação passageira, seguida por uma lividez quase irreal. A despeito de tudo, continuou calado. Van Helsing afastou a parte solta do invólucro. Todos nós olhamos e retrocedemos.
A urna estava vazia!”
Ainda, pelo menos mais um ponto pode incomodar muita gente: o quase nenhum desenvolvimento de personagem. O que sabemos de cada um deles, até mesmo do vampiro, no caso, as backstories, são informações esparsas, ainda que não de modo aleatório embora eu me obrigue a reconhecer que houve uma evolução durante a trama, pois todo mundo se vê mudando para algo melhor depois da inacreditável série de eventos. Embora a mentalidade vitoriana se faça muito presente nas atitudes dos personagens, no que destaco algumas cenas de interação entre Lucy e seus “pretendentes”, o que pode incomodar muita gente, já que, se vocês pesquisarem mais a fundo, verão nela muitos pensamentos bem preconceituosos, especialmente contra os costumes “bárbaros” dos estrangeiros e a imensa dedicação à preservação da pureza das moças. Se bem que muita coisa ainda hoje não mudou.

“O professor girou a maçaneta, mas a porta não cedeu. Todos nos lançamos contra ela, que se escancarou em um estrondo, e quase caímos no meio do quarto. Van Helsing chegou a cair, pois o vi tentando levantar-se. A cena a minha frente me deixou paralisado. Senti meus cabelos se arrepiarem e meu coração quase parar.
O luar estava tão forte que clareava o ambiente, apesar das venezianas amarelas. Estendido na cama junto à janela, dormia Jonathan, com o rosto congestionando e respirando ruidosamente, como em pleno estupor. E perto dele, de frente para a janela, via-se a figura alva de sua mulher. Em pé, ao lado de Mina, havia um homem alto e magro, trajando vestes negras. Seu rosto permanecia de perfil para nós, mas o reconhecemos de imediato, era o conde... em todos os detalhes, inclusive a cicatriz que desfigurava sua testa.”

Apesar de todas as controvérsias que podem ser despertadas, Drácula permanece um grande clássico e dificilmente cairá no esquecimento, ainda mais quando edições novíssimas em folha apareceram ainda ano passado.
Uma das minhas, que aparece nas fotos, é da Darkside e sem dúvida uma das edições mais lindas e completas existentes nesse planeta. Verdade que eu paguei um pouquinho mais caro que o normal, mas sinceramente? Não me arrependi nem por um momento. Só olhem as fotos e me digam: é ou não é um produto lindo?
Não apenas um produto, sendo absolutamente sincera. Um excelente livro, seja pela descrição fidedigna da Era Vitoriana, seja pela história do vampiro Drácula ou pelo modo como introduziu o vampiro em definitivo no rol da literatura fantástica. 

Por isso, esse sem dúvida é o livro que você procura e a Lady Trotsky indica.


Fotos da Edição Dark da Darkside:





Sobre Renata Cezimbra

Brasileira e gaúcha com os dois pés e muita imaginação na região do Prata, pois é lá que começa o universo dos Vampiros Portenhos. Onde convergem os vórtices das mais férteis referências de uma dama teimosa, que aprecia pitadas de cultura pop, referências underground e coisas do arco da velha.

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4 comentários:

  1. Esse livro está na minha lista para ler em outubro, quando farei leituras do gênero terror e horror e adorei saber que o Drácula é do mal mesmo. Amo um vilão de verdade.
    Amei suas fotos.
    Beijos

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  2. Eu acho um livro extraordinário e justamente por ter particularidades durante a leitura, mas concordo com você, não é para todo mundo. Quero uma edição dessas, linda.

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  3. Oi Renata!
    Essa é uma das histórias que nunca será esquecida, esse livro foi que mais marcou minha juventude pois sempre gostei de mistério sobre vampiros e seres sobrenaturais. Drácula sempre foi uma incógnita pra mim se ele é mocinho ou bandido, mas ainda tenho minhas fantasias kkk. Essa edição está linda quero um desses pra mim, parabéns pela resenha, bjs!

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  4. Oi gente, tudo bem?
    Grata por comentarem sempre por aqui. Vocês tem ideia do que me fazem feliz fazendo isso? S2
    Um beijo de fogo e gelo da Lady Trotsky

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