quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

[Lady Trotsky Resenha] Drácula - Bram Stoker

Título: Drácula
País: Inglaterra
Autor (a): Bram Stoker
Ano: 1897
Classificação: https://1.bp.blogspot.com/-zDdo-Rt0Er8/Xmrs0wjvBdI/AAAAAAAAMLk/9qhhhyAD2ysL77kXD7mLgq-nz8CQbxsGgCPcBGAYYCw/s1600/Cinco%2B%252B%2BFavorito.jpg

Sinopse: Um pavoroso embate entre bem e mal que seduz milhares de leitores há mais de um século. Fonte de inúmeras adaptações para telas e palco, inspiração para músicos, escritores e artistas de todas as áreas, Drácula é um ícone incontestável e obra máxima de Bram Stoker. De um lado o conde Drácula – o mais famoso vampiro da literatura. De outro, um grupo unido e decidido a caçá-lo: Jonathan e Mina Harker, o médico holandês Van Helsing e seus amigos.

 


Um romance de 1897 ainda hoje chama atenção mesmo todo mundo conhecendo a trama de cor e salteado mesmo nunca tendo lido o livro. Afinal, quem até hoje não ouviu falar do grande “rei dos vampiros”, Drácula? Se nunca ouviu, siga em frente com a leitura da resenha. Se ouviu, mas não leu o livro, acredite, você vai se interessar por ele quando chegar ao fim desse texto.
Drácula, publicado em 26 de maio de 1897, ou seja, há 120 anos, não é um livro para exatamente qualquer leitor, ainda mais quando as coisas mudaram muito em todos esses anos. Por que?
É um livro longo (as edições variam entre 370 e 500 páginas, dependendo da editora e da brochura) embora não muito complicado, porém, é preciso ter paciência com alguns pontos que hoje não são tão atraentes para os leitores apesar de eu particularmente gostar. Quais seriam eles?

“A população da Transilvânia é formada por quatro nacionalidades distintas: ao sul, os saxões, aos quais se misturam também os valáquios, que são descendentes dos dácios. A oeste encontram-se os magiares e, finalmente, nas regiões norte e leste, os tchecos. Estou me dirigindo justamente à região habitada por esses últimos, os quais alegam ser descendentes de Átila e os hunos. Talvez haja uma certa verdade nessa pretensão pois, quando os magiares conquistaram o país, ainda no decorrer do século XI, já encontraram esse povo ali fixado. Lembro-me de ter lido a afirmação de que todas as superstições existentes neste mundo se concentram na ferradura dos Cárpatos, como se esse ponto representasse o centro do vórtice das mais férteis imaginações. Se essa suposição corresponder à verdade, então minha permanência em tal ambiente se tornará sumamente interessante. (Lembrete: preciso perguntar ao conde tudo sobre essa teoria.)”
A narrativa em forma de cartas, diários, reportagens, mensagens taquigráficas e outras formas de comunicação usadas na época que às vezes pode dar aquela cansada básica em quem está lendo. Porém, é justamente isso a tornar o livro tão rico no quesito narrativa, pois conhecemos o ponto de vista do Dr. John (Jack) Seward, de Jonathan Harker e sua noiva, depois esposa, Wilhelmina Murray (Harker), carinhosamente chamada de Mina, além de um único capítulo do diário de Lucy Westenra, melhor amiga dela, vitimada durante a trama. Sei que soa como spoiler, mas duvido alguém não saber disso. Ademais, essa cena dificilmente não aparece nas adaptações cinematográficas e teatrais do livro. Ainda, a narração dos fatos reforça a sobrenaturalidade da trama embora eles só venham a descobri-la na metade do livro, o que acho uma sacada genial não importa quantas vezes eu releia. (Até hoje foram quatro.) Além, é claro, de ser impossível não admirar a extensa pesquisa feita por Stoker para dar maior veracidade à história.
Apesar de termos apenas esses pontos de vista, eles conseguem passar os sentimentos de outros personagens do livro, como o professor Abraham Van Helsing, o responsável por revelar a nefanda verdade aos outros personagens e Arthur Holmwood, o noivo de Lucy e um dos que se vê forçado pelas circunstâncias a acreditar que há coisas além da compreensão humana.

“Hoje o dia está e, enquanto escrevo, o sol se oculta por trás de espessas nuvens – cúmulos-nimbus – bem acima de Ketlleness. Tudo se acha impregnado do mesmo tom acinzentado, exceto a relva verdejante, que mais parece uma faiscante esmeralda em meio à ausência de cor.
São cinzentos os rochedos e as nuvens, ainda aureoladas pelos raios solares e suspensas sobre as vagas de um mar também cinzento e que, por sua vez, vai se confundir com os cinzentos recortes arenosos das pontas litorâneas. As ondas rolam incessantemente sobre os baixios e recifes com estrondoso fragor, que parece ficar abafado pela névoa vinda do quebra-mar.”
Sendo essa a parte que mostra, com um bom número de descrições e diálogos muito interessantes entre Helsing e Seward, o contraste entre a crença no sobrenatural e o avanço da ciência que torna possível desmistificar alguns fenômenos que muito antigamente as pessoas tratavam por eventos sobrenaturais. Sendo um exemplo justamente o mito do vampiro, meu tema de TCC em 2011. Apenas pensem, baseados no que escrevi há pouco: e se fossem vocês que estivessem nessa situação, como agiriam? Se soubessem que alguém amado por vocês está virando um monstro chupador de sangue, o que fariam?
No caso de Drácula, os personagens não pensam duas vezes em exterminar Lucy por mais que a adorem, porém, estamos falando de um livro produzido ainda na Era Vitoriana, onde imperava um código moral hoje considerado um absurdo inacreditável. Ou seja, a antes pura e casta senhorita Westenra agora era um ser maligno e luxurioso cuja existência era uma afronta aos princípios da natureza (isso soa familiar?), assim como o vampiro Drácula o é.

“Todos têm sido tão gentis comigo! Sem sombra de dúvida, o prof. Van Helsing já me conquistou! Não consigo entender, porém, porque as flores lhe provocaram tamanha ansiedade. No entanto, algum motivo deve existir, pois desde então elas já transmitem uma sensação de conforto e tranquilidade. Sinto que não terei mais medo de ficar sozinha à noite. Poderei me recolher para dormir, sem nenhum temor. O impacto das asas de encontro a minha janela já não me assusta. Ah, finalmente darei um fim à interminável luta que travava contra o sono. Adeus agonia provocada pela insônia e o sofrimento causado pelos infindáveis fantasmas da imaginação.”
O personagem título, sem mentira alguma, é o grande vilão da história e podem ter feito todas as adaptações possíveis e imagináveis, que isso não vai mudar, na essência. O Conde Drácula é maligno, manipulador, inescrupuloso e não hesita em prejudicar meio mundo em nome daquilo que deseja: saciar sua sede de sangue em um local cheio de potenciais vítimas. No entanto, ele sofre do mal da soberba e isso pode custar a ele um preço bem alto, pois por mais que ele possa ter o luxo de viver muito e esperar, isso não quer dizer que a humanidade, no caso, os protagonistas humanos do livro, sejam tolos o suficiente para ficar parados esperando acontecer o pior.

“Com sua chave de fenda, o professor removeu a tampa do caixão. Atento a cada movimento e muito pálido, Arthur observava tudo silenciosamente. Assim que a tampa foi retirada, ele deu um passo à frente. Evidentemente não sabia da existência de um invólucro de chumbo ou talvez não tivesse pensado sobre esse detalhe. Ao ver o extenso rasgo aberto na lâmina do revestimento, uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto, mas foi apenas uma reação passageira, seguida por uma lividez quase irreal. A despeito de tudo, continuou calado. Van Helsing afastou a parte solta do invólucro. Todos nós olhamos e retrocedemos.
A urna estava vazia!”
Ainda, pelo menos mais um ponto pode incomodar muita gente: o quase nenhum desenvolvimento de personagem. O que sabemos de cada um deles, até mesmo do vampiro, no caso, as backstories, são informações esparsas, ainda que não de modo aleatório embora eu me obrigue a reconhecer que houve uma evolução durante a trama, pois todo mundo se vê mudando para algo melhor depois da inacreditável série de eventos. Embora a mentalidade vitoriana se faça muito presente nas atitudes dos personagens, no que destaco algumas cenas de interação entre Lucy e seus “pretendentes”, o que pode incomodar muita gente, já que, se vocês pesquisarem mais a fundo, verão nela muitos pensamentos bem preconceituosos, especialmente contra os costumes “bárbaros” dos estrangeiros e a imensa dedicação à preservação da pureza das moças. Se bem que muita coisa ainda hoje não mudou.

“O professor girou a maçaneta, mas a porta não cedeu. Todos nos lançamos contra ela, que se escancarou em um estrondo, e quase caímos no meio do quarto. Van Helsing chegou a cair, pois o vi tentando levantar-se. A cena a minha frente me deixou paralisado. Senti meus cabelos se arrepiarem e meu coração quase parar.
O luar estava tão forte que clareava o ambiente, apesar das venezianas amarelas. Estendido na cama junto à janela, dormia Jonathan, com o rosto congestionando e respirando ruidosamente, como em pleno estupor. E perto dele, de frente para a janela, via-se a figura alva de sua mulher. Em pé, ao lado de Mina, havia um homem alto e magro, trajando vestes negras. Seu rosto permanecia de perfil para nós, mas o reconhecemos de imediato, era o conde... em todos os detalhes, inclusive a cicatriz que desfigurava sua testa.”

Apesar de todas as controvérsias que podem ser despertadas, Drácula permanece um grande clássico e dificilmente cairá no esquecimento, ainda mais quando edições novíssimas em folha apareceram ainda ano passado.
Uma das minhas, que aparece nas fotos, é da Darkside e sem dúvida uma das edições mais lindas e completas existentes nesse planeta. Verdade que eu paguei um pouquinho mais caro que o normal, mas sinceramente? Não me arrependi nem por um momento. Só olhem as fotos e me digam: é ou não é um produto lindo?
Não apenas um produto, sendo absolutamente sincera. Um excelente livro, seja pela descrição fidedigna da Era Vitoriana, seja pela história do vampiro Drácula ou pelo modo como introduziu o vampiro em definitivo no rol da literatura fantástica. 

Por isso, esse sem dúvida é o livro que você procura e a Lady Trotsky indica.


Fotos da Edição Dark da Darkside:





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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

[Sobre o Universo] As Mulheres Mágicas – Por Matilde Olmos y Piñedo (Professora e Feiticeira Elemental da Água)

 


Ninguém sabe ao certo quem foi a primeira das Mulheres Mágicas, comumente conhecidas (leia-se, pelos humanos) como Bruxas (na verdade uma das categorias, mas isso explico depois), do mundo.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

[Sobre o Universo] Uma vez mordido, duas vezes tímido e o nascimento de "Irreversível" (Vol. 1)

 


Eu começo essa postagem perguntando quem aqui é do tempo do Cinema em Casa, no SBT ou da Sessão da Tarde, na Rede Globo.


A dama teimosa aqui cresceu com ambos os programas e foi no Cinema em Casa, lá no ano de 2001, em seis de abril, data que eu só descobri pesquisando na internet porque não lembrava, exceto que eu era bem mocinha (eu ia fazer treze anos no dia 20 de abril de 2001), quando, pela primeira e única vez, pelo menos até o ano passado, assisti Procura-se um rapaz virgem (1985), um dos muitos “clássicos nostálgicos” da década de oitenta.


Eu chamo de “clássicos nostálgicos” porque assim como esse filme que menciono, alguns desses filmes que passavam nessas sessões não são exatamente o que eu chamaria de um filme impecável. Uma boa parte deles envelheceu mal, ou muito mal, e outros assistimos hoje e ficamos impressionados com a quantidade de furos de roteiro ou incoerências e até mesmo aquela dose de politicamente incorreto que hoje deixa muita gente p da vida. Se eu não contar os efeitos especiais, as maquiagens, a cenografia e um sem número de aspectos técnicos que avançaram muito nas últimas décadas.


O caso de Procura-se um rapaz virgem, ou Once Bitten, o título original, originado de um ditado em inglês: Once bitten, twice shy., é um desses filmes que, assistindo hoje, é fácil perceber os furos de roteiro e as incoerências. Em especial a nenhuma preocupação dos roteiristas em explicar pelo menos um pouco do universo vampiresco dentro do filme. Porque a única explicação é mais uma paródia do que propriamente um aspecto coerente. Até porque nem na mitologia original isso existia. Caso estejam se perguntando, esse ponto foi criação da literatura e foi exaustivamente usado por décadas nos filmes.


Sim, teimosos, é um filme de vampiros. Mais precisamente de uma vampira, a Condessa (Lauren Hutton), que precisa beber pelo menos três vezes o sangue de um rapaz virgem de modo a se manter jovem e bela e nesse ínterim ela conta com a ajuda de um grupo de vampiros menos importantes, cinco homens e duas mulheres, na tentativa de evitar um desastre. Nesse meio tempo, ela encontra Mark Kendall (Jim Carrey, em seu primeiro protagonista), que pode ser a solução de seus problemas, mas a namorada dele, Robin (Karen Kopkins), pode colocar tudo a perder com sua esperteza.


Eu menciono os vampiros menos importantes porque aí reside uma das maiores incoerências, se não a maior incoerência, do filme: se ela precisa de sangue virgem masculino nesse caso, porque tem duas mulheres no grupo? Das duas uma: ou ela pode apelar para sangue feminino ou elas caíram de paraquedas ali por mordida de algum deles. Mas ninguém faz questão de explicar. Sem contar que o fato do Mark e da Robin terem conseguido escapar, quando em teoria isso seria impossível, é uma forçada de barra belíssima, mas como é uma comédia, é relevável, por assim dizer. 


Até porque como todo, ou pelo menos a maioria, o filme americano dos anos oitenta e noventa que se preze, o Mal não vence mesmo se a solução narrativa tiver de ser a mais forçada possível.
Depois de todo esse comentário, sem dúvida serei questionada sobre isso: Procura-se um rapaz virgem é um bom filme? Dentro da proposta dele, acaba sendo, mas nem tanto. Até porque o humor do filme é bem datado e alguns pontos hoje fazem as pessoas ficarem com a melhor cara de: por favor, sem essa! Não é impecável, mas ele cumpre a promessa de entreter e satirizar a temática vampírica, já que esse era o objetivo principal desde o princípio porque o fato de ser uma comédia já implica que não é para ser levado a sério.


Mas a imaginação de um autor dificilmente não leva a sério alguma coisa.
Mesmo que seja para criar algo em cima.


Inspirado na recente tendência de alguns filmes catástrofe e terror de focarem mais no lado de quem é afetado pela situação do que na situação por si mesma. Citando os exemplos de Halloween (2018), que apesar do mesmo nome, é a sequência direta do clássico de 1978 ignorando totalmente a franquia, e o recente Destruição Final: O Último Refúgio (2021).


Assim, nasceu mais uma história do nicho dos Vampiros Portenhos Além do Prata, com o título de Irreversível.
Porque eu autora me perguntei como quatro pessoas, três rapazes e uma moça do High School (o equivalente americano do Ensino Médio), lidariam com o fato de terem sobrevivido a uma horda de vampiros, considerando que tudo o que eles mais amavam podia estar em perigo e eles tendo de lidar com o fato de terem sido tapeados por meros humanos.
Porque eu autora dei um nome e uma história para cada um dos vampiros menos importantes, que no livro ganham uma backstory, motivações, paixões, personalidade, segredos, problemas, amores, família. Tudo o que um bom personagem precisa para que a história ande e venha a ser como é. Porque nenhuma história realmente se sustenta sem eles. Sejam os principais ou secundários.
Porque eu autora…
Transformei Mark Kendall em Patrick Wilder, um estudante sonhador que no futuro quer ser engenheiro robótico, mas sabe que esse é um sonho difícil. Fiz Robin Kierce virar Cassandra Rossellini, uma ítalo-americana de sangue quente que não pensa duas vezes em comprar briga pelo que considera certo e defender as pessoas que ama mesmo que se machuque no processo. Já Jim e Russ se tornaram James Parker, um garoto indígena com o sonho de ser químico e Riley Padilla, um rapaz latino amante de biologia que sempre está ao lado do irmão de criação Jim. Esses quatro, por centenas de páginas, se verão enfrentando muitos obstáculos.
Transfigurei a Condessa na Baronesa Juliette Meinster, uma vampira de passado traumático e difícil que tão apenas quer continuar viva e proteger seus discípulos das decisões ruins que teve de tomar em nome de ser livre. E Sebastian tornou-se Orlando, uma pessoa não-binária que, não importa o que, sempre está ao lado de sua melhor amiga, praticamente irmã e por ela é capaz de enfrentar um exército inteiro sem armas.
Criei sete vampiros muito diferentes entre si, mas que se complementam de uma forma única.
Um ex-soldado confederado, John Hooligan, que perdeu a família de forma trágica e busca vingança contra o responsável. Há nele algo meio Red Dead Redemption e dos faroestes clássicos.
Molly Winters, a mais velha do grupo de vampiros após sua mãe de criação, a Baronesa e Orlando, que na sua primeira infância nunca recebeu afeto ou carinho por ter nascido em uma cela de prisão.
Um piloto Ás da Primeira Guerra, Henry Dermitt, abatido por ninguém menos que o próprio Barão Vermelho. Que tenta manter a sanidade no meio de um mundo tão caótico enquanto mostra sua gratidão e lealdade à Juliette mesmo algumas vezes se valendo de meios questionáveis.
Dois gêmeos idênticos, Vermont e Villeneuve Durand, criados sem pai no circo por uma mãe artista e que luziram como artistas vaudeville no final do século dezenove. Mas a tuberculose decidiu fazer morada em um deles e a decisão tomada por ambos lhes mudou a vida para sempre.
Joseph Lillard, um ex-grumete irlandês do começo do século dezenove que carrega consigo toda a amargura de uma vivência repleta de abusos psicológicos e violência enquanto vivia nos inóspitos navios mercantes, de guerra ou piratas mar afora. Faz o arquétipo do personagem sombrio que não demonstra qualquer sentimento, mas… Tem uma forte inspiração no protagonista do anime Gun Sword, Van.
Elvira Piper, a mais nova do grupo, uma hippie que foi encontrada no famoso Festival de Woodstock e no grupo entrou porque a Esclerose Lateral Amiotrófica iria matá-la dentro de alguns anos. Ela é quem sempre está buscando conhecimento e tenta compreender o funcionamento do sistema vampírico de modo a ajudar a Baronesa Juliette a não depender de sangue virgem para manter seus poderes estáveis.
Sim, aqui a virgindade do sangue totalmente é mágica e sobrenatural e por isso esse sangue é tão cobiçado pelas bruxas das trevas. O caso de Juliette, entretanto, é bem diferente, mas ainda estou criando a situação.
Nessa minha nova história, também, introduzimos um novo tipo de seres: os Aspers (a pronúncia é éspers). Que basicamente são os mutantes do meu universo, exceto que não são nascidos com alterações genéticas, mas com a capacidade de usar a Energia Gaia, aqui conceituada como a própria força vinda da Mãe Terra. A qual poucos tem a real capacidade de usar e mesmo os usuários precisam ter cuidado ou se arriscam a morrer se usarem os poderes de forma imprudente.
No meio de toda essa confusão, Cassandra, a minha mais nova protagonista, vai descobrir mais de si mesma do que nunca pensou e segredos que ela jamais pensou que quem ela menos espera guardava. Patrick, disposto a sempre estar ao lado da garota que ama, vai testemunhar o melhor e o pior da humanidade e ver suas crenças e princípios sendo brutalmente desafiados. James e Riley, como leais amigos que são do casal, também estarão dispostos a ficar do lado deles e junto com eles suportar todas as adversidades que o destino vai fazer o favor de colocar no caminho deles.
Por fim, por mais datado que esse filme seja, ele acabou sendo responsável por ser o embrião de um projeto pelo qual estou apaixonada e que eu espero que apreciem conforme eu for mostrando.
Lady Trotsky encerra a transmissão aqui, agora. 

PS: Uma ideia dos personagens...









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quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

[Lady Trotsky Resenha] O Historiador - Elizabeth Kostova

Título: O Historiador
Autor (a): Elizabeth Kostova
Páginas: 544
Editora: Suma de Letras
Classificação: 

Sinopse: Certa noite bem tarde, ao explorar a biblioteca do pai, uma jovem encontra um livro antigo e um maço de cartas amareladas. As cartas estão todas endereçadas a "Meu caro e desventurado sucessor", e fazem mergulhar em um mundo com o qual ela nunca sonhou - um labirinto onde os segredos do passado de seu pai e o misterioso destino de sua mãe convergem para um mal inconcebível escondido nas profundezas da história.

 

 

 

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

[Sobre o Universo] A Ordem dos Guerreiros Arcanos

 Primeiramente, o blog voltou, de novo. Segundo e mais importante, muitas desculpas por ter ficado mais de dois meses ausentes, mas me bateu um desânimo gigante com relação a muitos fatos atuais e também tive muito trabalho recentemente, o que drenou meu tempo de forma considerável. Além de um novo projeto literário do qual darei mais detalhes em breve.

Segue mais um pedaço do universo dos Vampiros Portenhos...


Uma ordem antiga, mais velha do que qualquer ordem religiosa. 


Não sei quantos anos ela tem, mas sei que surgiu algum tempo depois da Ordem dos Cavaleiros Templários ter sido totalmente extinta logo após Jacques de Molay ser queimado pela Inquisição. Naquela época já sendo tão horrível como sempre foi. 


Por mais compassivo e piedoso que eu seja, desta gente sinto o mais sincero e profundo ódio. Se tenho chance, elimino algum remanescente, que atualmente age em nome dos Inquisidores Púrpura, os inimigos número um daqueles que prezam a verdadeira liberdade e a execução correta da justiça. Caso perguntem, púrpura é a cor dos uniformes deles. Geralmente capuzes e luvas.

A Ordem dos Guerreiros Arcanos, sem uma cor definida porque cada membro escolhe o que prefere usar, aceita todos os que estiverem dispostos a fazer o bem e lutar por um mundo melhor. Liberdade, Justiça, Compaixão e Amor são as nossas diretrizes não importando a cor da pele, a orientação sexual, o gênero, a crença ou a religião.


Embora cada um seja livre para exercer aquilo no que crê, Professor Molay, o fundador da Ordem, acredita que o Universo é a verdadeira forma de Deus, o que explicaria a Onipresença que a Bíblia tanto comenta. Mas muitos se perguntam o porquê então de parecer que a maldade predomina na maior parte do mundo atual e parecer que Deus não evita que coisas ruins aconteçam com quem não merece.


O que acontece é que a maioria não sabe de uma coisa: o Universo te devolve exatamente aquilo que você lhe dá. Pode ser que a colheita demore, mas se você planta coisas boas, colherá coisas boas, no caso, o que realmente importa, pois quem realmente o odeia só enxergará aquilo que quiser ver. Posso falar por experiência. Mas se você plantar sementes ruins, colherá frutos muito piores. Não raramente, esses frutos geram consequências por anos a fio. Se você ler a história da colonização das Américas, e porque não Ásia e África, terá um exemplo perfeito.

Infelizmente vivi isso e bem mais de muito perto, o que profundamente me afetou e motivou minha luta pela independência das regiões sulinas da América do então poderoso Império Espanhol. Que ainda prevalece, mas agora somente um reino, assim como Inglaterra e outros países menores da Europa, o que não é menos ruim, pois particularmente não aprecio a ideia de ainda existirem monarquias, no que me pergunto que utilidade prática ela terá nos dias de hoje. A meu ver, nenhuma particularmente digna de nota. Pois se você tem um parlamento e um primeiro ministro, de que servem reis e rainhas? Para mim, de nada e honestamente, não fariam falta se desaparecessem de vez. 

Professor Molay me diria para não escrever semelhante coisa, pois todas as vidas têm valor independente do que tenham feito de certo ou errado.  Um dos muitos ideais que os Guerreiros Arcanos seguem. Nada respondo, mas ele sabe que para mim elas não valem muito. Não que eu vá matar algum deles, porque nunca fui capaz mesmo tendo tido todas as chances antigamente e hoje, que as tenho bem mais numerosas. Simplesmente sei que de nada adianta tirar uma vida quando nada efetivamente mudará se isso acontecer. 

Yamata No Orochi, se não estivesse dormindo dentro do meu corpo nesse momento, daria altas gargalhadas na minha mente dizendo que eu deveria parar de ser um vampiro bonzinho e nas palavras dele, “foder com tudo de uma vez”. Eu lhe mandaria ficar quieto e ele me mostraria a língua igual uma criança mimada. 

De certo modo, ele é uma criança mimada de alguns milhares de anos que costumava devorar donzelas no que hoje é o arquipélago do Japão, enviada ao inferno após ter seu corpo verdadeiro, uma serpente diabólica de oito cabeças de trinta metros, atravessado por um chuço de ferro temperado gigante. As lendas japonesas aumentam bastante a história verdadeira, que não cabe aqui comentar agora. Seu espírito, um demônio cuja forma costumeira em nosso mundo é a de um típico rapaz oriental, não sei dizer de qual das etnias asiáticas por não ser bom em distingui-las, habita o bracelete eternamente conectado ao meu braço direito graças à adaga cerimonial de Mariano Moreno em 1850.

Ser um Guerreiro Arcano nunca é uma tarefa fácil e sendo um vampiro, menos ainda. É como caminhar em uma corda bamba que nunca para de balançar e só o Universo parece saber como se manter em cima dela. No entanto, há uma diferença entre ser um homem bom e um homem malvado: a atitude que você tem diante daqueles que mal te causam. Desde que encarei o fato de que sempre tive trevas dentro de mim, pois todos os seres as têm. O lado mais forte e predominante de alguém depende das suas escolhas, mais até do que das atitudes, pois algumas, senão todas, as boas, podem mascarar outras menos nobres. Sei por igual experiência assim como sei que nem sempre o certo é necessariamente fácil. Aliás, o caminho certo é infinitamente mais longo.

Permaneço seguindo esse longo caminho. Sou um soldado. Sempre fui. Sempre serei. Enquanto eu tiver uma vida, ainda que morta durante o dia, lutarei. Ou como diria a oração do Grande Padroeiro dos Guerreiros Arcanos...


Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Todos me chamam de Pepe, mas poucos sabem quem eu realmente fui e a maioria sabe como a História me conhece: o General Libertador. Ou simplesmente, José de San Martín.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

[Sobre o Universo] Notas da Professora Matilde Olmos y Piñedo sobre os Animorfos:


    Por melhores que hoje sejam os avanços tecnológicos que nos permitem ter uma melhor ideia sobre os hábitos e costumes dos chamados animorfos, a verdade é que ainda estamos muito longe de saber tudo o que poderíamos.
    Não ajuda o fato de que boa parte do conhecimento sobre eles costuma ser através de narrativas orais. Muitas delas nem sempre perto da realidade, ainda mais quando os grupos de animorfos existentes que se unem para formar comunidades preferem não ter contato com a civilização conhecida. Motivos não faltam, devo dizer.
    O que sabemos sobre os animorfos:

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sexta-feira, 16 de outubro de 2020

[Meus dois centavos sobre...] Pequeno manual de como cuidar da própria vida (ou algo parecido)

 


Admito, o título é meio cômico. Assumo também, levei um bom tempo pensando nesse texto. Por último, o título é inspirado em uma série de postagens de uma amiga minha, ex-colega de faculdade, a Rita.

Há seis dias, a Igreja Católica beatificou um rapaz chamado Carlo Acutis. Falecido em 2006, aos quinze anos, vítima de um tipo raro, e fatal, de leucemia, a M3. Sobre o qual eu li em alguns links para conhecer melhor uma história tão fascinante, e porque não dizer, um pouco fora da curva, considerando como os adolescentes são no geral. Ou pelo menos o que mais se vê. Eis que, a partir da vida desse rapaz, me perguntei, mas já venho perguntando isso há eras: o que é ter uma vida plena em Deus?

Ou plena, para tornar mais abrangente a coisa toda, já que nem todo mundo é cristão ou acredita em Deus. Whatever. (#CláudiaLemesFeelings)

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domingo, 6 de setembro de 2020

[Conteúdo Exclusivo de Plataformas Gratuitas] Crowley - Universo Expandido: A Longa Viagem de Volta - 5ª parte


 

5ª Parte: Shion

 

Eu queria manter minha descrença em eventos fora do cientificamente explicável, mas já não conseguia mais fazê-lo com a mesma convicção de antes.

Era fácil, porém, achar tudo isso fruto de uma grande histeria coletiva, entretanto, aquele encontro com a cartomante misteriosa ressoa em minha mente com força. Sem contar a maneira emocionada e crédula de Franco ao falar acerca de toda essa situação. Devo acreditar com 100% de honestidade ou me dar ao benefício da dúvida?

Me sinto dividida entre crer ou não nessa história enquanto estamos, após uma jornada a pé de pelo menos vinte minutos, porque no fim não achamos necessário tomar um transporte, entrando na Basílica do Santíssimo Sacramento. Uma histórica e antiga igreja fundada na época da fundação da fortificação que originou a cidade e passada por reconstruções e reformas até possuir sua forma atual. Tão linda como me lembro do último dia que estive aqui antes de ir embora para o Japão com meus pais.

— Você devia sentir falta disso, não é mesmo? — disse Franco a sorrir.

— Eu costumava vir à missa uma vez por semana com a minha babá — digo com um sentimento de saudade, mesmo meus pais não sendo católicos nem de dogma nem de prática.

— Sei disso, mas o Takeshi não era exatamente cristão, eu imagino — ele me observa.

— Mamãe continua sendo taoísta e papai era. Já eu sou agnóstica — respondo enquanto procuramos o padre para que nos mostre tudo o que tem sobre Adrian Crowley. Se me lembro, seu nome era Carlos e ele tinha um bigode preto, também cabelos pretos e era um pouco mais alto que o inspetor.

— Agnóstica? — ele me olha surpreso enquanto esperamos o padre após uma senhora, varrendo a igreja, nos dizer que ele está ao telefone na sacristia.

— Sim, Franco. Eu creio que a fé é muito importante para muitas coisas, mas não considero correto permitir a um dogma tomar conta da vida a ponto de fazer uma pessoa dependente demais disso. Não possuo nada contra religiões, apenas acho essencial haver equilíbrio entre suas práticas religiosas e pessoais e de preferência, as pessoas praticarem mais aquilo que pregam caso o façam porque infelizmente há muitos hipócritas nesse meio — respondo com franqueza.

— Por mais que eu seja padre, tenho de concordar com suas palavras, moça — diz o padre após sair da sacristia agora aberta.

— Oras, padre Carlos, você não se lembra da Shion? Aquela menina oriental que vinha com a finada Yanaina às missas dominicais — ele me indica e ri.

Dios mío, no lo puedo creer! É você?! — ele pergunta colocando as mãos em meus ombros a sorrir.

— Sim, eu mesma. Devo dizer, lembro das suas missas embora... não seja católica — digo.

— Desde que seu coração seja bondoso, não importa qual religião você siga — disse o padre sorrindo e perguntando em seguida: — Precisam de algo?

— Todas as informações que tiver sobre Adrian Crowley. Para minha tese de doutorado — minto sem piscar e Franco assente, considerando que contar a fantástica história do policial seria no mínimo loucura. Ainda mais porque Franco não escondeu que nem mesmo o padre achava possível existirem vampiros e eu mesma não tinha qualquer certeza embora ele estivesse convicto em seu relato.

— Não temos muita coisa, mas, posso ceder o espaço da sacristia para sua pesquisa. Já adianto, porém, você não vai gostar muito do que lerá — diz padre Carlos sério.

— Crowley não é a única prova de que a mente humana é complicada. A História possui muitas provas dessa teoria — respondo polida.

— Psiquiatria? — pergunta o padre.

— Psicologia. Psiquiatras receitam remédios, eu estudo a mente humana e dou conselhos — respondo e o padre se desculpa gentilmente: — Perdão pelo meu engano.

— O senhor não é o primeiro a fazer confusão com minha área de trabalho. O próprio inspetor Franco fez isso quando nos reencontramos — rio.

— Bem, é compreensível quando não conhecemos muito da área na qual você trabalha — Franco me diz também rindo, mas logo foca em me mostrar as outras provas do que me disse em sua casa, mas fala baixo embora o padre tenha se ausentado para pegar os arquivos no armário onde são guardados os arquivos históricos: — Depois de você ler sobre Crowley, vou levá-la ao escritório do legista, pois os laudos dos mortos ficaram com ele.

— Sim, quero ver essas provas também — digo ainda me perguntando se devo acreditar nisso com 100% de certeza, porém, todas aquelas fotos, em especial o retrato falado de Crowley, e as palavras do inspetor mexem comigo mais do que quero admitir.

É quando padre Carlos nos chama para a sacristia e na mesa, está um arquivo rigorosamente fechado. Ele diz: — Isso é o diário do capelão que acompanhava os jesuítas. Na parte onde estão dois marcadores, quando você abrir o livro, é onde começa e termina tudo o que temos sobre Adrian Crowley. Presumo que precisará de tempo para ler tudo isso, pois não é pouca coisa.

— Claro — respondo e logo me sento para começar a leitura.

Não sabia exatamente qual era minha expectativa sobre isso, mas o resultado se provou absolutamente pior do que eu esperava. Longe de ser cansativa, a leitura estava bem mais para perturbadora antes mesmo de eu chegar a um terço dela. Eu esperava qualquer coisa de Lord Crowley, mas aquelas palavras foram capazes de me fazer sentir indescritível nojo daquele ser. Nem mesmo minha crença no lado bom da vida foi o suficiente para conseguir um sentimento por ele que não fosse o mais profundo e sincero ódio, porém, lembro das palavras de minha mãe...

Shion, não sinta ódio das pessoas, mas sim pena, em especial daquelas que nunca receberam ou sentiram amor. Não há nada mais horrível do que viver na escuridão.

— Se você ainda quer estudá-lo para sua tese de doutorado, prepare-se. O que está vindo por aí é muito pior — diz o padre percebendo meus sentimentos não sei como.

— Consigo imaginar. Meu Deus, que... horror. Eu já tinha lido sobre psicopatas em vários livros, mas ele consegue superar todas as expectativas imagináveis para qualquer padrão pré-estabelecido pela psicologia — falo horrorizada.

— Acredito ser melhor deixar essa leitura de lado por enquanto. Nota-se seu mal-estar de longe — diz o padre com expressão de quem quer me convencer a não continuar lendo.

— Vou continuar. Eu entendo português, mesmo sendo um pouco antigo. Se quero mesmo estudá-lo, tenho de aprender a lidar com as atrocidades cometidas por ele. Até porque existiram, e existem, pessoas bem piores — falo com firmeza e convicção mesmo sabendo ser errado mentir.

— Não tem jeito de discordar — diz Franco cruzando os braços.

— Ficaremos por perto caso precise de alguma coisa. Mas, gostaria de uma água? Quem sabe um café? — pergunta padre Carlos.

— Por agora não — digo para em seguida voltar a me concentrar na leitura. Os dois me deixam sozinha na sacristia, mas pelo barulho, eles estão perto da porta.

Continuo lendo e cada descrição do capelão jesuíta sobre as ações de Adrian Crowley me aperta o coração, agonia a mente e inquieta o espírito. Mesmo para alguém com minha experiência em analisar pessoas, aquilo estava em um escopo muito acima do que eu era capaz de aguentar, mas me forcei, pois quanto mais soubesse acerca da situação, melhor lidaria com ela para ajudar Jorge. Pois considero importante saber a causa do trauma dos pacientes para ajudá-los embora aquele caso não somente envolvesse o filho de Franco, mas também tentar acreditar com 100% de honestidade naquela história fantástica e assustadora. A verdade, porém, era: eu estava mais crente naquilo do que minha mente queria assumir.

Especialmente quando cheguei à parte que relatava como Adrian Crowley tinha conhecido a família Farías, da qual sairia sua célebre amante María. Por acaso o mesmo nome da falecida namorada de Jorge, descendente dessa família de colonos. Inclusive o jazigo deles, o mais antigo da cidade, fica nos fundos do cemitério municipal, conservado em razão de ainda ser usado e era lá onde a moça falecida três meses antes estava depositada. Pois alguns países latino-americanos têm o costume de sepultar seus mortos dentro de capelas acima da terra. Coincidência das mais sinistras, considerando a morte trágica de ambas.

Com a descrição do fim da primeira, a de 1687, meses antes da execução de Lord Crowley, ir muito além do simples flagrante do pai da jovem ao encontrar a filha caçula já morta nos braços dele. Naquela altura já convertido, segundo a descrição do pobre homem choroso para o capelão, em um monstro de presas grandes e olhos mortiços diabólicos. Que tentou atacar o pobre camponês, mas foi repelido por uma cruz carregada pelo pai enlutado e afastou-se até não ser mais visto, pois o dia já amanhecia e ele nunca aparecia antes do pôr do sol, mas isso ninguém entendia o porquê. A falta de conhecimento do povo o impedia de ver o total perigo ao qual estavam submetidos até ser quase tarde demais embora eles tivessem a certeza de ser algo terrível.

O que vinha depois, porém, era ainda pior. Me perguntei como era possível alguém ser capaz de decapitar a própria irmã após a mesma ser enterrada. Aliás, não tinha sido só um o responsável. Semelhante ato fora feito pelas três irmãs e o irmão restantes de María, Jacobo, Viliganda, Mariana e Jacinta, logo após a pobre moça ser enterrada no que era um rudimento da atual capela onde os Farías de todas as gerações descansavam hoje. Pois como não tinham ideia de como combater as monstruosidades do depravado estrangeiro, eles se obrigaram a esperar ele ficar sem aparecer e fizeram a única coisa possível: decapitação. Afinal, tinham certeza de que os animais mortos por ausência de sangue eram com certeza obra da irmã caçula, com certeza transformada em algo monstruoso após morrer pelas mãos do diabólico amante.

Sem saber o porquê, de repente tive uma estranha sensação de deja vù. No entanto, isso me perturbou de tal forma que fechei o livro com força, em uma tentativa de me livrar do medo de repente tomando conta das minhas ações. Por isso, tentando continuar focada na minha atual missão, achei melhor sair da sacristia: — Padre, agradeço por me permitir pesquisar, mas preciso de um tempo antes de continuar. Toda essa história é perturbadora demais até para o que estou acostumada.

— Eu imaginei. Honestamente, nem eu gosto de mexer nesses arquivos, mas eles são parte da história da cidade, gostando ou não — diz o padre com um suspiro.

— Voltaremos outro dia — diz Franco e eu concordo com um aceno de cabeça para logo nos despedirmos e seguir em direção ao cemitério, em mais uma considerável caminhada, pois preciso colocar a mente de volta no lugar após ler tantas coisas perturbadoras.

— Você não parece nada bem, Shion — Franco diz após nós dois ficarmos em prolongado silêncio, pois a avenida é consideravelmente grande.

— Inspetor, alguma vez já lhe passou a sensação de já ter visto ou vivido algo quando claramente você nunca viu aquilo ou nunca esteve em um lugar? — pergunto mais para desabafar.

— Nunca me passou isso — ele responde para depois me olhar com espanto: — O que aconteceu na sacristia enquanto você lia?

— Não sei explicar como, mas tive uma sensação de deja vù enquanto lia aquele diário. Algo me dizia que eu já tinha visto algo ou vivido alguma situação como aquelas descritas, mas eu sei ser impossível — respondo ainda me sentindo muito estranha.

— Bem, talvez você tenha lido algo ou visto algum filme que de alguma forma veio em sua mente durante aquela leitura — replica ele com tranquilidade, mas a sensação de estranheza não vai embora mesmo assim, embora eu tenha respondido...

— Pode ser. Esse tipo de coisa pode acontecer a qualquer um.

No entanto, nem mesmo dizendo tal frase em voz alta fico tranquila, porém, acho melhor não demonstrar para não preocupar Franco mais ainda. Até mesmo puxo assuntos amenos e comento estar feliz demais por Jorge enfim estar voltando à sua antiga forma enquanto caminhamos até o cemitério municipal, onde chegamos após uma caminhada de quarenta minutos, pois como o sol está um pouco quente, optamos por não ir com muita pressa.

— Preciso perguntar antes de entrarmos: está pronta para ver o que pretendo lhe mostrar? — ele pergunta com clara preocupação.

— Sim, estou. Eu tenho uma ideia do que esperar — respondo lembrando de quando vi o cadáver de meu pai logo após o acidente fatal na autoestrada e de passar semanas recebendo visitantes e seus cumprimentos de condolências pela morte de Takeshi Tachibana.

— Desculpe a pergunta, mas não posso evitar: foi muito difícil ver o seu pai... morto? — a curiosidade de Franco vem acompanhada de uma tristeza impossível de não ser vista.

Respondo enquanto caminhamos em direção à Morgue Judiciária: — Sinceramente, foi o pior dia da minha vida. Não há um dia sequer no qual eu seja capaz de esquecer aquele momento. O depois, se possível, conseguiu ser ainda mais duro. Eu e mamãe passamos quatro dias com o corpo do meu pai antes do enterro, pois ele foi velado em dois locais diferentes, um deles sendo o Sul do Japão, pois lá era sua terra natal. Foi muito difícil ser obrigada a constatar que nunca mais veria papai novamente. Nós tínhamos tantos planos para aquele verão...

Me interrompo aos prantos e Franco me abraça: — Se quiser, podemos ir embora. Eu não quero te expor a uma situação assim se você não estiver em condições de suportar.

— Augusto, está tudo bem. Sou forte o suficiente para isso. Se quero ajudar Jorge a superar isso, me obrigo a saber tudo sobre, mesmo a pior parte — respondo mesmo não tendo, de repente, a certeza de minhas palavras, pois a sensação estranha de antes permanece e parece ter piorado à medida que ando até a morgue com o inspetor.

Chegamos à casa branca de um único andar, mas comprida como o corredor de um hospital e batemos à porta. Nada demora a sermos atendidos pelo legista: — Inspetor? Que hora inusitada para uma visita. Quem é a senhorita com você?

— Dra. Shion Tachibana, psicóloga. A filha do Takeshi, com quem você adorava dividir um mate quando ele ia na delegacia falar comigo durante o intervalo — ele diz para o espanto do homem, que me olha encantado: — Nossa! Essa menina já era uma lindeza quando pequena, mas agora está uma princesa! Não me espantarei se o Jorge se apaixonar por ela!

— Senhor! — rio, vermelha de vergonha enquanto Franco o olha com cara de quem diz sobre não ser a melhor hora para fazer semelhantes comentários.

— Me chamo Helio Gallardo, caso não lembre — responde ele sorrindo, mas depois ficando triste: — Meus sentimentos por seu pai, Shion. Ele era um ser humano como poucos.

Gracias, doctor — respondo sorrindo algo triste.

— Mudando de assunto agora: qual o motivo da visita? — pergunta ele ainda tentando entender nossa presença.

— Quero mostrar à Shion os documentos das mortes ocorridas em 1987 e a três meses. É possível? — pergunta Franco para o espanto de Gallardo: — Sim, mas tem certeza de que é uma boa ideia mostrar isso a ela? Eu não recomendaria.

— Eu preciso. Franco me contou toda a história que vocês viveram. Quero acreditar, mas é fantástico demais para achar real. Também, quero usar Adrian Crowley como tema da minha tese de doutorado — respondo percebendo que essa ideia está ficando mais forte a cada minuto.

— Eu entendo sua posição, mas não posso deixar de alertá-la quanto ao horror disso. Acredite, senhorita Shion, Franco diz a verdade. Vimos a pobre María retornar da morte transformada em uma sanguessuga monstruosa. Foi uma cena horrível. Todos ficamos em choque. Para nossa sorte, ela morreu de novo na luz do dia — diz o legista com tal convicção que fico sem saber como reagir. Franco, porém, faz uma expressão agoniada, como se quisesse dizer alguma coisa, mas sem ter coragem para verbalizar.

— Está tudo bem?

— Não está nada bem. Eu receio que... ela pode não estar completamente morta — o inspetor responde sentando-se em uma cadeira próxima ao canto da parede.

— Nós vimos o que aconteceu! Como pode afirmar semelhante absurdo?! — Gallardo pergunta e eu reforço: — Não me leve a mal, mas tudo isso soa muito absurdo.

— Nos últimos dois anos, eu tenho lido muito sobre vampiros e meu atual conhecimento me permite dizer isso com todas as letras porque mesmo o caso de Crowley ainda tem muitas partes não esclarecidas. Só aquele diário não dá conta de dizer tudo porque nem o capelão tinha ideia total do que enfrentava — diz Franco tentando manter a calma.

— Há uma pergunta que, creio eu, ninguém respondeu: se ele já estava transformado nesse monstro descrito pelo senhor Farías de 1687, então como ele foi capturado e condenado? Seria impossível, se fosse o caso, conseguir esse objetivo, ainda mais porque ninguém daria conta de enfrentá-lo — digo pensando na situação, mas o fato de eu não ter terminado a leitura daquele diário ajuda nas dúvidas.

— Eu terminei de ler aquele diário e, segundo as palavras daquele capelão, a magia negra de Crowley tinha duração limitada, provavelmente significando que, fosse qual fosse o objetivo dele, ele não o estava conseguindo realizar — Franco consegue se acalmar enfim.

— Mas que objetivo ele teria? — o legista olha com espanto.

— Ninguém sabe, até porque ainda hoje é desconhecido quando ele chegou à Colônia do Sacramento e de onde ele teria vindo. A possibilidade mais aceita, segundo os poucos estudiosos com coragem de adentrar mais a fundo a figura de Adrian Crowley, é que ele teria vindo de Buenos Aires, na época ainda não sendo a capital do futuro Vice-Reino do Rio da Prata. O conhecimento geral é, e mesmo assim não é tão preciso: ele chegou acompanhado de uma comitiva de criados e carregando incontáveis baús contendo roupas, joias e outros objetos, que nunca foram encontrados, sequer um traço. Porque a casa, como eu pude ver em 1987, está completamente vazia. Os criados, por sua vez, foram embora não muito tempo depois carregando alguns saquinhos de ouro e só ficaram criadas, que desapareceram conforme o tempo passou. Provavelmente mortas nos rituais de magia negra por ele conduzidos — Franco diz e eu fico horrorizada, mas mantenho a compostura.

— Considerando suas palavras, é bem possível que ele estivesse tentando encontrar alguma coisa ou ajudar alguém. Segundo meus conhecimentos da psicologia, quem realiza esse tipo de ritual tem como objetivos obter poder, conhecimentos ocultos e proibidos ou ajudar alguém. Talvez tudo isso junto, mas depende muito de quem faz — digo cruzando os braços pensativa.

— A única real maneira de esclarecer essas dúvidas seria descobrir mais sobre ele, mas eu não sei se gosto da ideia de saber mais sobre esse monstro — diz o legista igualmente pensativo.

— Também não aprecio, mas mamãe costuma sempre repetir essa frase de Sun Tzu e acho que ela se encaixa muito bem agora: Aquele que se empenha a resolver as dificuldades resolve-as antes que elas surjam. Aquele que se ultrapassa a vencer os inimigos triunfa antes que as suas ameaças se concretizem — olho-os sorrindo.

— Dona Yuko soube mesmo educá-la. Adoraria poder dizer isso a ela pessoalmente — Franco sorri.

— Ela apreciaria ouvir com certeza — sorrio, mas logo fico séria novamente:

— Infelizmente não há muito mais o que fazer acerca de Crowley. Mas, ainda preciso ver o resto das provas. Há como?

— Sim, espere um minuto que já volto. Franco, você planeja mandar exumar o corpo de María Farías para... você sabe... comprovar sua teoria? — ele pergunta claramente desanimado.

— Prevenção é a melhor decisão sempre. Se ela estiver se decompondo, tudo bem. Mas se estiver bem conservada demais, eu receio que terei de atravessá-la com uma estaca e... cortar a cabeça — diz ele para meu horror: — Mutilar cadáveres é crime!

— Shion está certa. Ainda por cima, por que raios ela não despertou mais? Não sei se você está ciente disso, mas a cidade está tranquila depois daqueles eventos horríveis — o legista diz sério e depois se ausenta para pegar a pasta com os laudos.

Nada digo e Franco acha melhor calar-se, pois sabe que eu jamais concordaria com semelhante coisa, porém, o compreendo. Ele está com medo de uma nova tragédia e quer evitar a todo o custo que ela se concretize, mas estou certa disso tudo ser apenas coisa da cabeça dele, porém, mesmo eu tenho dúvidas embora não devesse. Afinal, vampiros não existem.

Ou estou errada?

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