sexta-feira, 16 de outubro de 2020

[Meus dois centavos sobre...] Pequeno manual de como cuidar da própria vida (ou algo parecido)

 


Admito, o título é meio cômico. Assumo também, levei um bom tempo pensando nesse texto. Por último, o título é inspirado em uma série de postagens de uma amiga minha, ex-colega de faculdade, a Rita.

Há seis dias, a Igreja Católica beatificou um rapaz chamado Carlo Acutis. Falecido em 2006, aos quinze anos, vítima de um tipo raro, e fatal, de leucemia, a M3. Sobre o qual eu li em alguns links para conhecer melhor uma história tão fascinante, e porque não dizer, um pouco fora da curva, considerando como os adolescentes são no geral. Ou pelo menos o que mais se vê. Eis que, a partir da vida desse rapaz, me perguntei, mas já venho perguntando isso há eras: o que é ter uma vida plena em Deus?

Ou plena, para tornar mais abrangente a coisa toda, já que nem todo mundo é cristão ou acredita em Deus. Whatever. (#CláudiaLemesFeelings)

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domingo, 6 de setembro de 2020

[Conteúdo Exclusivo de Plataformas Gratuitas] Crowley - Universo Expandido: A Longa Viagem de Volta - 5ª parte


 

5ª Parte: Shion

 

Eu queria manter minha descrença em eventos fora do cientificamente explicável, mas já não conseguia mais fazê-lo com a mesma convicção de antes.

Era fácil, porém, achar tudo isso fruto de uma grande histeria coletiva, entretanto, aquele encontro com a cartomante misteriosa ressoa em minha mente com força. Sem contar a maneira emocionada e crédula de Franco ao falar acerca de toda essa situação. Devo acreditar com 100% de honestidade ou me dar ao benefício da dúvida?

Me sinto dividida entre crer ou não nessa história enquanto estamos, após uma jornada a pé de pelo menos vinte minutos, porque no fim não achamos necessário tomar um transporte, entrando na Basílica do Santíssimo Sacramento. Uma histórica e antiga igreja fundada na época da fundação da fortificação que originou a cidade e passada por reconstruções e reformas até possuir sua forma atual. Tão linda como me lembro do último dia que estive aqui antes de ir embora para o Japão com meus pais.

— Você devia sentir falta disso, não é mesmo? — disse Franco a sorrir.

— Eu costumava vir à missa uma vez por semana com a minha babá — digo com um sentimento de saudade, mesmo meus pais não sendo católicos nem de dogma nem de prática.

— Sei disso, mas o Takeshi não era exatamente cristão, eu imagino — ele me observa.

— Mamãe continua sendo taoísta e papai era. Já eu sou agnóstica — respondo enquanto procuramos o padre para que nos mostre tudo o que tem sobre Adrian Crowley. Se me lembro, seu nome era Carlos e ele tinha um bigode preto, também cabelos pretos e era um pouco mais alto que o inspetor.

— Agnóstica? — ele me olha surpreso enquanto esperamos o padre após uma senhora, varrendo a igreja, nos dizer que ele está ao telefone na sacristia.

— Sim, Franco. Eu creio que a fé é muito importante para muitas coisas, mas não considero correto permitir a um dogma tomar conta da vida a ponto de fazer uma pessoa dependente demais disso. Não possuo nada contra religiões, apenas acho essencial haver equilíbrio entre suas práticas religiosas e pessoais e de preferência, as pessoas praticarem mais aquilo que pregam caso o façam porque infelizmente há muitos hipócritas nesse meio — respondo com franqueza.

— Por mais que eu seja padre, tenho de concordar com suas palavras, moça — diz o padre após sair da sacristia agora aberta.

— Oras, padre Carlos, você não se lembra da Shion? Aquela menina oriental que vinha com a finada Yanaina às missas dominicais — ele me indica e ri.

Dios mío, no lo puedo creer! É você?! — ele pergunta colocando as mãos em meus ombros a sorrir.

— Sim, eu mesma. Devo dizer, lembro das suas missas embora... não seja católica — digo.

— Desde que seu coração seja bondoso, não importa qual religião você siga — disse o padre sorrindo e perguntando em seguida: — Precisam de algo?

— Todas as informações que tiver sobre Adrian Crowley. Para minha tese de doutorado — minto sem piscar e Franco assente, considerando que contar a fantástica história do policial seria no mínimo loucura. Ainda mais porque Franco não escondeu que nem mesmo o padre achava possível existirem vampiros e eu mesma não tinha qualquer certeza embora ele estivesse convicto em seu relato.

— Não temos muita coisa, mas, posso ceder o espaço da sacristia para sua pesquisa. Já adianto, porém, você não vai gostar muito do que lerá — diz padre Carlos sério.

— Crowley não é a única prova de que a mente humana é complicada. A História possui muitas provas dessa teoria — respondo polida.

— Psiquiatria? — pergunta o padre.

— Psicologia. Psiquiatras receitam remédios, eu estudo a mente humana e dou conselhos — respondo e o padre se desculpa gentilmente: — Perdão pelo meu engano.

— O senhor não é o primeiro a fazer confusão com minha área de trabalho. O próprio inspetor Franco fez isso quando nos reencontramos — rio.

— Bem, é compreensível quando não conhecemos muito da área na qual você trabalha — Franco me diz também rindo, mas logo foca em me mostrar as outras provas do que me disse em sua casa, mas fala baixo embora o padre tenha se ausentado para pegar os arquivos no armário onde são guardados os arquivos históricos: — Depois de você ler sobre Crowley, vou levá-la ao escritório do legista, pois os laudos dos mortos ficaram com ele.

— Sim, quero ver essas provas também — digo ainda me perguntando se devo acreditar nisso com 100% de certeza, porém, todas aquelas fotos, em especial o retrato falado de Crowley, e as palavras do inspetor mexem comigo mais do que quero admitir.

É quando padre Carlos nos chama para a sacristia e na mesa, está um arquivo rigorosamente fechado. Ele diz: — Isso é o diário do capelão que acompanhava os jesuítas. Na parte onde estão dois marcadores, quando você abrir o livro, é onde começa e termina tudo o que temos sobre Adrian Crowley. Presumo que precisará de tempo para ler tudo isso, pois não é pouca coisa.

— Claro — respondo e logo me sento para começar a leitura.

Não sabia exatamente qual era minha expectativa sobre isso, mas o resultado se provou absolutamente pior do que eu esperava. Longe de ser cansativa, a leitura estava bem mais para perturbadora antes mesmo de eu chegar a um terço dela. Eu esperava qualquer coisa de Lord Crowley, mas aquelas palavras foram capazes de me fazer sentir indescritível nojo daquele ser. Nem mesmo minha crença no lado bom da vida foi o suficiente para conseguir um sentimento por ele que não fosse o mais profundo e sincero ódio, porém, lembro das palavras de minha mãe...

Shion, não sinta ódio das pessoas, mas sim pena, em especial daquelas que nunca receberam ou sentiram amor. Não há nada mais horrível do que viver na escuridão.

— Se você ainda quer estudá-lo para sua tese de doutorado, prepare-se. O que está vindo por aí é muito pior — diz o padre percebendo meus sentimentos não sei como.

— Consigo imaginar. Meu Deus, que... horror. Eu já tinha lido sobre psicopatas em vários livros, mas ele consegue superar todas as expectativas imagináveis para qualquer padrão pré-estabelecido pela psicologia — falo horrorizada.

— Acredito ser melhor deixar essa leitura de lado por enquanto. Nota-se seu mal-estar de longe — diz o padre com expressão de quem quer me convencer a não continuar lendo.

— Vou continuar. Eu entendo português, mesmo sendo um pouco antigo. Se quero mesmo estudá-lo, tenho de aprender a lidar com as atrocidades cometidas por ele. Até porque existiram, e existem, pessoas bem piores — falo com firmeza e convicção mesmo sabendo ser errado mentir.

— Não tem jeito de discordar — diz Franco cruzando os braços.

— Ficaremos por perto caso precise de alguma coisa. Mas, gostaria de uma água? Quem sabe um café? — pergunta padre Carlos.

— Por agora não — digo para em seguida voltar a me concentrar na leitura. Os dois me deixam sozinha na sacristia, mas pelo barulho, eles estão perto da porta.

Continuo lendo e cada descrição do capelão jesuíta sobre as ações de Adrian Crowley me aperta o coração, agonia a mente e inquieta o espírito. Mesmo para alguém com minha experiência em analisar pessoas, aquilo estava em um escopo muito acima do que eu era capaz de aguentar, mas me forcei, pois quanto mais soubesse acerca da situação, melhor lidaria com ela para ajudar Jorge. Pois considero importante saber a causa do trauma dos pacientes para ajudá-los embora aquele caso não somente envolvesse o filho de Franco, mas também tentar acreditar com 100% de honestidade naquela história fantástica e assustadora. A verdade, porém, era: eu estava mais crente naquilo do que minha mente queria assumir.

Especialmente quando cheguei à parte que relatava como Adrian Crowley tinha conhecido a família Farías, da qual sairia sua célebre amante María. Por acaso o mesmo nome da falecida namorada de Jorge, descendente dessa família de colonos. Inclusive o jazigo deles, o mais antigo da cidade, fica nos fundos do cemitério municipal, conservado em razão de ainda ser usado e era lá onde a moça falecida três meses antes estava depositada. Pois alguns países latino-americanos têm o costume de sepultar seus mortos dentro de capelas acima da terra. Coincidência das mais sinistras, considerando a morte trágica de ambas.

Com a descrição do fim da primeira, a de 1687, meses antes da execução de Lord Crowley, ir muito além do simples flagrante do pai da jovem ao encontrar a filha caçula já morta nos braços dele. Naquela altura já convertido, segundo a descrição do pobre homem choroso para o capelão, em um monstro de presas grandes e olhos mortiços diabólicos. Que tentou atacar o pobre camponês, mas foi repelido por uma cruz carregada pelo pai enlutado e afastou-se até não ser mais visto, pois o dia já amanhecia e ele nunca aparecia antes do pôr do sol, mas isso ninguém entendia o porquê. A falta de conhecimento do povo o impedia de ver o total perigo ao qual estavam submetidos até ser quase tarde demais embora eles tivessem a certeza de ser algo terrível.

O que vinha depois, porém, era ainda pior. Me perguntei como era possível alguém ser capaz de decapitar a própria irmã após a mesma ser enterrada. Aliás, não tinha sido só um o responsável. Semelhante ato fora feito pelas três irmãs e o irmão restantes de María, Jacobo, Viliganda, Mariana e Jacinta, logo após a pobre moça ser enterrada no que era um rudimento da atual capela onde os Farías de todas as gerações descansavam hoje. Pois como não tinham ideia de como combater as monstruosidades do depravado estrangeiro, eles se obrigaram a esperar ele ficar sem aparecer e fizeram a única coisa possível: decapitação. Afinal, tinham certeza de que os animais mortos por ausência de sangue eram com certeza obra da irmã caçula, com certeza transformada em algo monstruoso após morrer pelas mãos do diabólico amante.

Sem saber o porquê, de repente tive uma estranha sensação de deja vù. No entanto, isso me perturbou de tal forma que fechei o livro com força, em uma tentativa de me livrar do medo de repente tomando conta das minhas ações. Por isso, tentando continuar focada na minha atual missão, achei melhor sair da sacristia: — Padre, agradeço por me permitir pesquisar, mas preciso de um tempo antes de continuar. Toda essa história é perturbadora demais até para o que estou acostumada.

— Eu imaginei. Honestamente, nem eu gosto de mexer nesses arquivos, mas eles são parte da história da cidade, gostando ou não — diz o padre com um suspiro.

— Voltaremos outro dia — diz Franco e eu concordo com um aceno de cabeça para logo nos despedirmos e seguir em direção ao cemitério, em mais uma considerável caminhada, pois preciso colocar a mente de volta no lugar após ler tantas coisas perturbadoras.

— Você não parece nada bem, Shion — Franco diz após nós dois ficarmos em prolongado silêncio, pois a avenida é consideravelmente grande.

— Inspetor, alguma vez já lhe passou a sensação de já ter visto ou vivido algo quando claramente você nunca viu aquilo ou nunca esteve em um lugar? — pergunto mais para desabafar.

— Nunca me passou isso — ele responde para depois me olhar com espanto: — O que aconteceu na sacristia enquanto você lia?

— Não sei explicar como, mas tive uma sensação de deja vù enquanto lia aquele diário. Algo me dizia que eu já tinha visto algo ou vivido alguma situação como aquelas descritas, mas eu sei ser impossível — respondo ainda me sentindo muito estranha.

— Bem, talvez você tenha lido algo ou visto algum filme que de alguma forma veio em sua mente durante aquela leitura — replica ele com tranquilidade, mas a sensação de estranheza não vai embora mesmo assim, embora eu tenha respondido...

— Pode ser. Esse tipo de coisa pode acontecer a qualquer um.

No entanto, nem mesmo dizendo tal frase em voz alta fico tranquila, porém, acho melhor não demonstrar para não preocupar Franco mais ainda. Até mesmo puxo assuntos amenos e comento estar feliz demais por Jorge enfim estar voltando à sua antiga forma enquanto caminhamos até o cemitério municipal, onde chegamos após uma caminhada de quarenta minutos, pois como o sol está um pouco quente, optamos por não ir com muita pressa.

— Preciso perguntar antes de entrarmos: está pronta para ver o que pretendo lhe mostrar? — ele pergunta com clara preocupação.

— Sim, estou. Eu tenho uma ideia do que esperar — respondo lembrando de quando vi o cadáver de meu pai logo após o acidente fatal na autoestrada e de passar semanas recebendo visitantes e seus cumprimentos de condolências pela morte de Takeshi Tachibana.

— Desculpe a pergunta, mas não posso evitar: foi muito difícil ver o seu pai... morto? — a curiosidade de Franco vem acompanhada de uma tristeza impossível de não ser vista.

Respondo enquanto caminhamos em direção à Morgue Judiciária: — Sinceramente, foi o pior dia da minha vida. Não há um dia sequer no qual eu seja capaz de esquecer aquele momento. O depois, se possível, conseguiu ser ainda mais duro. Eu e mamãe passamos quatro dias com o corpo do meu pai antes do enterro, pois ele foi velado em dois locais diferentes, um deles sendo o Sul do Japão, pois lá era sua terra natal. Foi muito difícil ser obrigada a constatar que nunca mais veria papai novamente. Nós tínhamos tantos planos para aquele verão...

Me interrompo aos prantos e Franco me abraça: — Se quiser, podemos ir embora. Eu não quero te expor a uma situação assim se você não estiver em condições de suportar.

— Augusto, está tudo bem. Sou forte o suficiente para isso. Se quero ajudar Jorge a superar isso, me obrigo a saber tudo sobre, mesmo a pior parte — respondo mesmo não tendo, de repente, a certeza de minhas palavras, pois a sensação estranha de antes permanece e parece ter piorado à medida que ando até a morgue com o inspetor.

Chegamos à casa branca de um único andar, mas comprida como o corredor de um hospital e batemos à porta. Nada demora a sermos atendidos pelo legista: — Inspetor? Que hora inusitada para uma visita. Quem é a senhorita com você?

— Dra. Shion Tachibana, psicóloga. A filha do Takeshi, com quem você adorava dividir um mate quando ele ia na delegacia falar comigo durante o intervalo — ele diz para o espanto do homem, que me olha encantado: — Nossa! Essa menina já era uma lindeza quando pequena, mas agora está uma princesa! Não me espantarei se o Jorge se apaixonar por ela!

— Senhor! — rio, vermelha de vergonha enquanto Franco o olha com cara de quem diz sobre não ser a melhor hora para fazer semelhantes comentários.

— Me chamo Helio Gallardo, caso não lembre — responde ele sorrindo, mas depois ficando triste: — Meus sentimentos por seu pai, Shion. Ele era um ser humano como poucos.

Gracias, doctor — respondo sorrindo algo triste.

— Mudando de assunto agora: qual o motivo da visita? — pergunta ele ainda tentando entender nossa presença.

— Quero mostrar à Shion os documentos das mortes ocorridas em 1987 e a três meses. É possível? — pergunta Franco para o espanto de Gallardo: — Sim, mas tem certeza de que é uma boa ideia mostrar isso a ela? Eu não recomendaria.

— Eu preciso. Franco me contou toda a história que vocês viveram. Quero acreditar, mas é fantástico demais para achar real. Também, quero usar Adrian Crowley como tema da minha tese de doutorado — respondo percebendo que essa ideia está ficando mais forte a cada minuto.

— Eu entendo sua posição, mas não posso deixar de alertá-la quanto ao horror disso. Acredite, senhorita Shion, Franco diz a verdade. Vimos a pobre María retornar da morte transformada em uma sanguessuga monstruosa. Foi uma cena horrível. Todos ficamos em choque. Para nossa sorte, ela morreu de novo na luz do dia — diz o legista com tal convicção que fico sem saber como reagir. Franco, porém, faz uma expressão agoniada, como se quisesse dizer alguma coisa, mas sem ter coragem para verbalizar.

— Está tudo bem?

— Não está nada bem. Eu receio que... ela pode não estar completamente morta — o inspetor responde sentando-se em uma cadeira próxima ao canto da parede.

— Nós vimos o que aconteceu! Como pode afirmar semelhante absurdo?! — Gallardo pergunta e eu reforço: — Não me leve a mal, mas tudo isso soa muito absurdo.

— Nos últimos dois anos, eu tenho lido muito sobre vampiros e meu atual conhecimento me permite dizer isso com todas as letras porque mesmo o caso de Crowley ainda tem muitas partes não esclarecidas. Só aquele diário não dá conta de dizer tudo porque nem o capelão tinha ideia total do que enfrentava — diz Franco tentando manter a calma.

— Há uma pergunta que, creio eu, ninguém respondeu: se ele já estava transformado nesse monstro descrito pelo senhor Farías de 1687, então como ele foi capturado e condenado? Seria impossível, se fosse o caso, conseguir esse objetivo, ainda mais porque ninguém daria conta de enfrentá-lo — digo pensando na situação, mas o fato de eu não ter terminado a leitura daquele diário ajuda nas dúvidas.

— Eu terminei de ler aquele diário e, segundo as palavras daquele capelão, a magia negra de Crowley tinha duração limitada, provavelmente significando que, fosse qual fosse o objetivo dele, ele não o estava conseguindo realizar — Franco consegue se acalmar enfim.

— Mas que objetivo ele teria? — o legista olha com espanto.

— Ninguém sabe, até porque ainda hoje é desconhecido quando ele chegou à Colônia do Sacramento e de onde ele teria vindo. A possibilidade mais aceita, segundo os poucos estudiosos com coragem de adentrar mais a fundo a figura de Adrian Crowley, é que ele teria vindo de Buenos Aires, na época ainda não sendo a capital do futuro Vice-Reino do Rio da Prata. O conhecimento geral é, e mesmo assim não é tão preciso: ele chegou acompanhado de uma comitiva de criados e carregando incontáveis baús contendo roupas, joias e outros objetos, que nunca foram encontrados, sequer um traço. Porque a casa, como eu pude ver em 1987, está completamente vazia. Os criados, por sua vez, foram embora não muito tempo depois carregando alguns saquinhos de ouro e só ficaram criadas, que desapareceram conforme o tempo passou. Provavelmente mortas nos rituais de magia negra por ele conduzidos — Franco diz e eu fico horrorizada, mas mantenho a compostura.

— Considerando suas palavras, é bem possível que ele estivesse tentando encontrar alguma coisa ou ajudar alguém. Segundo meus conhecimentos da psicologia, quem realiza esse tipo de ritual tem como objetivos obter poder, conhecimentos ocultos e proibidos ou ajudar alguém. Talvez tudo isso junto, mas depende muito de quem faz — digo cruzando os braços pensativa.

— A única real maneira de esclarecer essas dúvidas seria descobrir mais sobre ele, mas eu não sei se gosto da ideia de saber mais sobre esse monstro — diz o legista igualmente pensativo.

— Também não aprecio, mas mamãe costuma sempre repetir essa frase de Sun Tzu e acho que ela se encaixa muito bem agora: Aquele que se empenha a resolver as dificuldades resolve-as antes que elas surjam. Aquele que se ultrapassa a vencer os inimigos triunfa antes que as suas ameaças se concretizem — olho-os sorrindo.

— Dona Yuko soube mesmo educá-la. Adoraria poder dizer isso a ela pessoalmente — Franco sorri.

— Ela apreciaria ouvir com certeza — sorrio, mas logo fico séria novamente:

— Infelizmente não há muito mais o que fazer acerca de Crowley. Mas, ainda preciso ver o resto das provas. Há como?

— Sim, espere um minuto que já volto. Franco, você planeja mandar exumar o corpo de María Farías para... você sabe... comprovar sua teoria? — ele pergunta claramente desanimado.

— Prevenção é a melhor decisão sempre. Se ela estiver se decompondo, tudo bem. Mas se estiver bem conservada demais, eu receio que terei de atravessá-la com uma estaca e... cortar a cabeça — diz ele para meu horror: — Mutilar cadáveres é crime!

— Shion está certa. Ainda por cima, por que raios ela não despertou mais? Não sei se você está ciente disso, mas a cidade está tranquila depois daqueles eventos horríveis — o legista diz sério e depois se ausenta para pegar a pasta com os laudos.

Nada digo e Franco acha melhor calar-se, pois sabe que eu jamais concordaria com semelhante coisa, porém, o compreendo. Ele está com medo de uma nova tragédia e quer evitar a todo o custo que ela se concretize, mas estou certa disso tudo ser apenas coisa da cabeça dele, porém, mesmo eu tenho dúvidas embora não devesse. Afinal, vampiros não existem.

Ou estou errada?

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sábado, 5 de setembro de 2020

[Meus dois centavos sobre...] Como a Família Cartier mudou a minha visão como leitora

 


 Começo esse texto com uma confissão: até pouco mais de um ano antes, eu não gostava de qualquer livro New ou Young Adult, em razão de comentários externos que li ou ouvi. Menos ainda de Hot. Aliás, esse último eu decididamente odiava. Com força. 

Não me levem a mal, gente, mas, infelizmente há MUITOS exemplares de romances desse gênero que fazem romantizações absurdas de comportamentos abusivos de todo o tipo, inclusive de estupro e pedofilia. No Wattpad tendo muitos exemplos de escritoras que fazem semelhantes coisas. Sim, falo de autoras mulheres, mas muitas dessas são quase crianças se comparadas comigo, que tenho 32 anos. Sem contar romances já publicados na Amazon, os quais as autoras, algumas mais maduras, leia-se, acima de quarenta anos, infelizmente não se deram ao trabalho de passar por um leitor crítico sério e um sensível para certos assuntos. 

Pois bem, como está claro na minha página, eu reviso e algumas vezes me meto a leitora crítica. Nesse ínterim, a editora na qual vou publicar dois livros do meu universo literário, no caso, a responsável por enviar originais para as minhas mãos de revisora, me enviou um livro chamado Entre o amor e a vingança, o primeiro romance de uma série que até então eu não conhecia a existência. 

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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

[Meus dois centavos sobre...] Wakaliwood, lugar de sonho e esperança

 

Doze dias antes, o Fantaspoa 2020, a décima sexta edição do festival de cinema fantástico mais lindo do planeta todo, o qual tenho o privilégio, orgulho, pompa e circunstância de dizer que é gaúcho, sim, senhor, da capital Porto Alegre, mas cidadão do mundo, terminou.

Deixando um gostinho, ou melhor, uma fome imensa, de quero mais.

Entre 137 filmes do mundo todo, 89 curtas e 48 longas (contando os que saíram antes do final) fizeram a alegria de cinéfilos como eu, que assisti dez longas de países cujo cinema eu não conhecia até então e curtas de pelo menos meio mundo em idiomas muito variados. Inglês, espanhol, iraniano, indiano, sérvio, esloveno, italiano, holandês, finlandês, sueco e uma lista ainda maior de línguas que meus ouvidos até então não conheciam.

Nesse texto, porém, eu quero falar de um certo lugar, ou melhor, um mundo paralelo onde tudo é possível e meio doido, onde a pobreza, a violência, a fome e outras mazelas dão lugar ao direito de sonhar com dias menos duros e mais belos ao nascer do sol e à esperança de um futuro melhor.

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

[Conteúdo Exclusivo de Plataformas Gratuitas] Crowley - Universo Expandido: A Longa Viagem de Volta - 4ª parte


4ª parte: Inspetor Franco

Será mesmo uma boa ideia contar a verdade para Shion?

Olho para a imagem da Virgem Maria na parede da sala perguntando à Mãe de Deus, e a Ele também, se sigo um caminho realmente sábio. No entanto, já não tenho mais opções para salvar Jorge da morte, pois sinto que se não agir logo, ele trilhará um caminho sem volta.

Por isso esperei a manhã acabar para conversar mais calmamente com minha agora hóspede, pois somente sabendo tudo poderá achar um caminho para lidar com meu filho. Mas minha felicidade é muita pelo primeiro avanço em meses, o de sair do quarto. Me atrevo, no entanto, a perceber mais um: ele pareceu sorrir ao vê-la. No entanto, penso ter sido só impressão, mas no fundo, torço para realmente tê-lo visto dar um sorriso. Embora não me surpreenda caso tenha sido só ilusão.

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domingo, 28 de junho de 2020

[Conteúdo Exclusivo de Plataformas Gratuitas] Crowley - Universo Expandido: A Longa Viagem de Volta - 3ª parte


3ª Parte: Shion

 

Apesar de conseguir descansar bem mesmo não estando mais acostumada com o fuso horário latino-americano, meu sono foi povoado por estranhos sonhos.

De nenhum deles, porém, lembro com clareza. Apenas fragmentos.

O barulho de rodas vacilando. O olhar perdido em algum lugar das paisagens, a mim desconhecidas. Os olhos escuros e brilhantes de um rapaz a me espiarem pelo caminho.

Certamente eles foram causados pela lembrança inesperadamente vinda de quando papai dizia que se eu não me comportasse, El Demonio de la Capa Negra me pegaria. Foi quando, já cansada de ouvir a mesma ladainha, perguntei à minha antiga babá, uma indígena chamada Yanaina, finada há dois anos, quem era esse e que mal poderia me causar se eu fosse malcomportada. A resposta dela me marcou profundamente...

Adrian Crowley, mi lucecita. O melhor a fazer, porém, é saber o menos possível disso. Créame, mi niñita amada, certos conhecimentos podem quebrar sua mente, arruinar seu espírito. Mesmo morto, esse demônio maldito ainda pode causar grande estrago e Deus sabe o quanto a amo para não permitir que sua alma pura e generosa trilhe um caminho de trevas. Por favor, me prometa: jamais deixe qualquer um podá-la. Você é uma linda e frondosa árvore cujos frutos de amor e generosidade serão lindos e preciosos.

Desde aquele dia, jamais perguntei sobre ele embora às vezes ouvisse menções. Porque a dor nas palavras daquela tão sofrida mulher indígena me calou fundo no peito e me fez ficar muito brava com papai por usar uma lenda tão assustadora de forma tão leviana. Não que acreditasse, pois mamãe conversou comigo abertamente sobre muitas coisas quando tive idade para entendê-las, mas, eu era empática demais para ignorar o sofrimento ameríndio. Não apenas pelas referidas ações maléficas de Crowley, mas também o cruel genocídio e horrível opressão sofridos pelos povos indígenas da América graças à ambição desmedida do Império Espanhol. Isso que não mencionei outros a fazer igual ou pior.

De tal forma que eu era fascinada por História na escola a ponto de ser uma das melhores alunas da classe nessa matéria, porém, meu Q.I. muito alto me fez pular a maior parte das séries escolares. Tanto que, aos quinze anos, ingressei na Universidade de Tóquio e mesmo sendo uma amante de fatos históricos, acabei escolhendo o curso de Psicologia. Por querer entender qual era a origem de tanto mal causado pelos humanos. Simplesmente, as pessoas não agem sem motivo. Não os explícitos e documentados, geralmente envolvendo grandes grupos, mas os da mente, pois cada pessoa é movida por algo muitas vezes incompreensível para ela própria.

Às vezes, porém, me pergunto: o que realmente me move?

É tanta maldade, falta de amor, de carinho, de empatia, de compaixão, de piedade. Que por sua vez se opõem ao egoísmo, a meu ver, o pai de todos os sentimentos ruins. Tal constatação me dói o coração e inquieta o espírito.

O mais engraçado, quando penso sobre isso, é todos falarem sobre a mitológica Pandora, considerada a primeira mulher criada por Zeus, o deus grego líder do Olimpo, ter soltado todos os males do mundo ao abrir uma ânfora que jamais deveria ser tocada. Pois, dessa forma, acabam nos associando com as decisões erradas alheias e outros problemas. Razão pela qual um dos maiores problemas sociais humanos ainda prevalece mesmo todos nós vivendo na era moderna: o machismo.

Entretanto, deveríamos ter a consciência disso: qualquer pessoa com o mínimo de raciocínio lógico sabe, ou ao menos deveria saber, ser responsável por suas próprias decisões e sua capacidade de afetar as situações de modos positivos ou negativos. Mas parece ser muito mais fácil negar a própria responsabilidade. A curiosidade, queiram ou não aceitar, é um traço da humanidade. Afinal, sem ela, não teríamos saído das cavernas.

Ao mesmo tempo, porém, reconheço a falta de limites de uma parte dela, mas acredito em uma coisa: o único e real limite dos seres humanos deveria ser, e para mim é, o respeito ao próximo e aos seus direitos. Que quando são desrespeitados, seja por qual motivo for, e sempre acontece, configura-se em falta deles, tendo como resultado toda a sorte de desgraças.

Mas, de repente lembro da professora Helena, a encarregada de nos ensinar História do Uruguai e da América, mencionando uma frase de Benito Juárez...

Entre os indivíduos, como entre as nações, o respeito ao direito alheio é a paz.

Também, já com lágrimas de alegria, o discurso final de Charles Chaplin em O Grande Ditador, um filme de 1940 que assistimos em outra aula, me vem à mente. Assim, lembro exatamente do que me move: o amor, pai de todos os bons sentimentos.

Que a mim foram transmitidos por meus pais desde a concepção, pois minha mãe por anos sonhou em ter um filho e meu pai a acompanhou nesse mesmo sonho embora ambos tivessem grandes pretensões profissionais. Mas como mamãe sempre diz, de nada vale ser bem-sucedido profissionalmente se por dentro você está quebrado ou vazio. É necessário um meio-termo, o encontro do equilíbrio entre as partes, algo nada fácil, considerando a fome consumista e o desejo de ascensão social tomando conta de muitos.

Pensando nisso, enfim me sinto pronta para começar um novo dia. Sorrio ao abrir a janela e contemplar o bonito tempo no lado de fora. Um céu azul sem nuvens acompanhado de um brilhante sol brilhando lá em cima e uma brisa fresca trazendo o perfume das flores indicam a ainda presente primavera, minha estação favorita.

Me visto com uma roupa bastante simples, calço uma sandália baixa e saio do quarto para tomar o desjejum matinal no andar de baixo quando me deparo com Jorge saindo de seu dormitório. Cuja visão me angustia de uma forma que fico a ponto de chorar. O semblante é triste e sombrio. O corpo e o rosto estão magros embora se note alguma saúde ali. A cadeira de rodas me diz muito mais que todas as explicações. Inspetor Franco surge na porta:

Buenos días, Shion. Dormiu bem? Pela primeira vez em três meses, convenci meu filho a deixar o quarto.

— Não sabia que a situação dele era tão grave — respondo agoniada.

— Pelo ponto de vista físico, não. Mas no lado mental, as coisas não estão nada boas. Ele pode caminhar e falar, mas... não quer. Eu não sei mais o que fazer para ajudá-lo. No momento só consigo evitar que ele tente se matar. Tenho consciência de não ser boa hora para pedir isso, mas... ajude-o, por favor — ele diz quase implorando e eu respondo com um abraço:

— Se depender de mim, farei meu melhor, mas... o senhor precisa me falar o que aconteceu. Sem isso, não saberei por onde começar.

— Nesse momento, vamos descer para o desayuno. Depois, conversaremos acerca de eso — a maneira como ele diz a última frase me dá uma estranha sensação dele estar pensando com cuidado em como me contará. O que me faz pensar em quais terão sido os fatos cujo resultado é Jorge mudo e paralítico.

Porém, quando terminamos de descer, Franco me leva ao lado de fora de forma inesperada e no quintal, sou surpreendida por uma enorme mesa cheia de doces e salgados, a maioria dos vizinhos gritando com alegria e vindo me encher de beijos e abraços e uma faixa com os dizeres:

Bienvenida de vuelta, Shion!

Díos mío, no puedo crer que aquella chiquitunga[1] ahora es una mujer tan hermosa! — diz uma velhinha, cujo lencinho azul no cabelo me faz reconhecê-la como a paraguaia Lelia, uma florista de perto da Basílica.

— Estamos tão felizes em tê-la de volta! Não tem ideia de como sentimos sua falta! — Adela, a vizinha doceira, a qual reconheci pelo avental sempre sujo de farinha e ovo, porque com certeza fez os doces no lado esquerdo da mesa, diz com alegria, mas em seguida suspira triste:

— Também, de como lamentamos a morte do Takeshi! Aquele homem era um verdadeiro santo. Sua mãe teve tanta sorte por encontrá-lo. Homens como ele são cada vez mais raros.

Lo sé, Doña Adela. Meu pai foi um grande homem, com certeza. Ele certamente ficaria feliz em ver como estão... me recebendo de volta — sorrio e choro ao mesmo tempo ainda recebendo muitos cumprimentos repletos de beijos e abraços.

— Espero que tenha gostado da surpresa — diz o inspetor com felicidade embora seus olhos mostrem tristeza.

— Sou... muito grata. Vocês sempre foram tão bons comigo e minha família! Por muitos momentos esqueci como era me sentir acolhida de verdade — digo alegre, mas essas palavras saem do fundo da minh’alma com tristeza, pois nunca tinha sido fácil ser uma jovem com pretensões muito além do esperado pela sociedade japonesa com relação a mim. Eles esperavam que eu fosse acima de tudo uma boa mãe, esposa e dona de casa casta, mas principalmente, me submetesse às regras de uma autoridade patriarcal.

Uma Yamato Nadeshiko.

Mas nunca fui, nem serei. Papai e mamãe me quiseram, e assim minha mãe amada continua querendo, como diz uma música de Mercedes Sosa, como un pájaro libre.

Sendo um pássaro livre, voei o mais longe possível, mas nesse momento, pousei. Para ser alegremente acolhida em Colônia do Sacramento, novamente sentindo que tenho um lar. Tanto que pretendo passar a manhã comemorando com os vizinhos, pois há tempos não me sentia tão feliz e realizada.

Mas não posso olvidar que um passarinho triste e ferido agora precisa da minha ajuda para voltar a voar.



[1] Pequerrucha, no espanhol paraguaio. Mas também foi o apelido da agora beatificada María Guggiari Echeverría, chamada, como carmelita descalça, de María Felícia del Jesus Sacramentado, dado pelo pai da hoje venerável paraguaia em razão de seu físico magro.

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