quinta-feira, 29 de julho de 2021

[Sobre o Universo] Vampiros: 1ª Parte - Algumas Notas Iniciais (Por Professor Elijah Colman)

 

Creio que não precise conceituar muito o que é um vampiro, pois é tão comum na cultura popular consumida mundo afora que fica difícil alguém não ter uma ideia sobre isso.
Mas, tenho uma pergunta: vocês têm uma real ideia de como são os vampiros da vida real?
Garanto a vocês uma coisa: os livros, séries e filmes, e até os RPG’s, não fazem jus à figura real do vampiro. Aliás, a todas, porque são pelo menos onze tipos diferentes com poderes variados que podem ser perigosos caso sejam provocados ou precisem se defender. Se eu não contar os experimentos de Mestres Bruxeiros ou os vampiros contaminados por radiação, casos que por si mesmos dariam textos muito maiores que esse.
Essencialmente, todos se alimentam de sangue e passam todo o dia repousando para apenas à noite despertar. No entanto, imagino que muitos se perguntem qual exatamente é a função, ou serventia, de um vampiro ou outros achem que eles nada mais são que parasitas, se alimentando da vida alheia para se manterem vivos.
Bem, a realidade sobre os vampiros é uma pura e simples: de fato, eles representam tudo o que os humanos secretamente desejam: a superação da morte e a liberação dos mais secretos e sombrios desejos da alma. Mas, representação não necessariamente significa que todo o vampiro é um ser maligno, cruel e assassino.
Na realidade, muitos de nós (sim, sou um atualmente) até mesmo salvamos a humanidade quando ela resolve que é uma excelente ideia entrar em guerra por conta de absurdos e mexer com o que não sabe lidar. Leia-se, temos de dar conta das burrices que parte dos humanos comete quase sempre. Sem contar que preservamos muitas histórias perdidas no tempo e conhecimentos que nenhum livro comporta, desde etnias até civilizações inteiras extintas antes que a História Oficial fizesse da Mesopotâmia a primeira delas.
Imagino, igualmente, que muitos até hoje se perguntem como surgimos ou como é possível criaturas bebedoras de sangue existirem em muitas culturas e elas sequer terem ligações umas com as outras. A segunda parte é explicável por um motivo: o sangue, queira ou não admitir, é a vida para o ser humano. Sua força vital, se fôssemos pensar pelo ponto de vista do vampirismo psíquico ou energético. Sim, caros leitores, não existem somente os sugadores de sangue. Há também humanos que são vampiros, e são infinitamente piores, se pararmos e pensarmos bem.
O sangue, desde tempos remotos e em qualquer cultura, simboliza a própria vida. É sinônimo de força, poder. Tanto que as tribos, quando derrotavam seus inimigos, consumiam seu líquido vital de modo a absorver sua força e outras características notáveis. Até porque, e admito que já fiz isso, a sensação de ver a vida do seu inimigo se esvaindo não deixa de ser fascinante. Mas isso não significa que nós vampiros matamos a torto e a direito.
Mesmo a Fome sendo como, segundo a descrição do hoje vampiro nosferatu (e não, eles não parecem o Conde Orlok do filme de 1922, com exceção dos dentes e das unhas longas) Leandro N. Alem, "se você, mesmo não podendo porque sua saúde não permite, não conseguisse parar de comer aquele alimento capaz de te matar, mas que te dá algo que nenhum outro foi capaz de dar.", ter controle sobre ela é uma das mais essenciais habilidades que um vampiro deve possuir.

 

 (Leandro N. Alem quando era mortal, provavelmente perto de sua morte, em 1896. Fotos atuais dele provavelmente não existem porque ele odeia ser fotografado.)


Afinal, querendo ou não, vivemos em sociedade e mesmo entre os sobrenaturais há leis que devem ser rigorosamente cumpridas, sendo a principal delas a Lei do Silêncio Juramentado, a qual, se não for cumprida, acarreta em pena capital para o criminoso.
Nisso inclui-se não sair deixando cadáveres à vista de todo mundo e não permitir que humanos saibam sua condição sob nenhuma hipótese. Caso ela ocorra sem que nenhuma das partes esteja diretamente envolvida, leia-se, situação fugida do controle, ou por motivo de relação de amizade ou algo mais íntimo, é preciso tomar providências que requeiram não prejudicar o humano, mas ele tem de estar disposto a colaborar. Sem isso, nada feito. É execução sumária.
Ainda nesse tópico, já digo que nós vampiros temos empregos normais como qualquer mortal e inclusive somos capazes de andar de dia caso tenhamos acesso a rubis escarlates ou lápis-lazúlis encantados por bruxas, mas nem todos tem paciência suficiente com a babaquice humana, isso que a nossa pode ser bem pior, preferindo o silêncio da noite para trabalhar.
No entanto, nem todos nós lidamos bem com a passagem do tempo ou com nossas vidas passadas, muitas vezes desenvolvendo distúrbios mentais característicos dos seres humanos como Depressão, Síndrome do Pânico, Transtorno Bipolar, Esquizofrenia, Transtorno de Comportamento Borderline, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Ansiedade etc, e até mesmo algumas fobias como Pirofobia ou Claustrofobia. (Sim, fogo nos fere gravemente e até nos transforma em cinzas, mas nem todos temos medo dele.)
Se eu ignorar o fato de que, por melhores sentidos que tenhamos, eles algumas vezes mais atrapalham que ajudam por melhores que os tenhamos treinado, em especial a audição que, por ser muito apurada, também é altamente sensível, nos torna suscetíveis a atordoamento caso alguém emita um som muito alto em cima de nós. Motivo pelo qual preferimos confiar mais em nosso olfato, pois ele dificilmente nos trai. Claro que isso vai de vampiro para vampiro.
Como já devem ter percebido, eu não comentei sobre nossa possível origem. Em verdade, há muitas teorias acerca de nossa existência e por mais que vários dos vampiros Ancestrais ainda vivam, nem mesmo eles têm uma real ideia de como se tornaram o que são, até porque cada um teve uma situação muito distinta. Pelo menos até onde se sabe, pois não costumam aparecer com frequência e nem falam muito do passado. Alguns até nem mesmo lembram seus nomes anteriores.
Essas, porém, são cenas dos próximos capítulos. Portanto, até a próxima.

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sábado, 17 de julho de 2021

[Meus dois centavos sobre...] Somos cringe mesmo ou o que?

Olha a dama teimosa aqui de novo esperando que vocês, de novo, tenham paciência comigo por não ter cumprido a promessa feita há exatos 31 dias: postar pelo menos três vezes na semana.
Mas eu de novo não estou conseguindo porque a inspiração até mesmo para os meus escritos anda longe do aceitável e tem tanta coisa acontecendo que nem sei por onde ou como começar a comentar.
Ou melhor, eu não sabia. Até pensar sobre uma perguntinha que anda correndo os quatro cantos da internet, tudo porque não param mais de falar disso e honestamente, eu cansei de ouvir isso antes mesmo de esfriar porque paciência nunca foi minha característica mais marcante.
Então…
O que é cringe?
É um termo cunhado por alguns usuários de internet que significa “vergonhoso” em inglês e usado por um pessoal que se acha cool por conta de sua moda, gostos e costumes, mas, na realidade, são é um coo. Uma gente que parece não ter nada melhor a fazer com a própria vida, por isso resolvendo dar seus pitacos na dos outros.
Bem, hora de uma dama teimosa dar o seu pitaco nesse assunto dizendo o que realmente é cringe. (Se alguém se sentir ofendido, eu não dou a mínima.)
Cringe é ser machista, LGBTQIA+fóbico, racista, sexista, intolerante religioso ou ter qualquer outro tipo de preconceito. Ou seja, cringe mesmo é não ter respeito pelo próximo.
Cringe é querer obter alguma coisa passando por cima de outro.
Cringe é querer pagar de santo, mas não fazer nem um terço do que prega.
Cringe é saber que vários países ainda punem pessoas por serem gays ou coisa parecida. 69 países cometem um ato tão CRINGE.
Cringe é saber que a maior parte dos países que colonizaram a África, a Ásia e a América nunca pediram perdão pelas atrocidades que cometeram contra os povos originários destas. Se eu não contar os Estados Unidos com relação aos povos indígenas e a financiar as ditaduras na América Latina ou Israel com relação aos palestinos. (Não que isso seja motivo para odiar os habitantes desses países porque aí já é xenofobia.)
Cringe é viver no país que mais mata travestis e transexuais do mundo, segundo a Trans Murder Monitoring ("Observatório de Assassinatos Trans", em inglês).
Cringe é termos mais de meio milhão de mortes por COVID-19 quando isso poderia ter sido evitado se tivéssemos um governo realmente competente e que se preocupasse com a população ao invés de ficar procurando ideologia em tudo e inventar desculpas para não fazer o que é certo e necessário.
Cringe é saber que muita gente ainda acha que não há uma pandemia no mundo todo e não toma os mínimos cuidados para evitar contaminações, fazendo todo o tipo de aglomeração e inclusive fazendo pouco das vítimas (isso lembra alguém?).
Cringe é ser ignorante a nível de apoiar situações que só vão te ferrar. (Sim, eu estou falando de política também, mas vamos deixar isso para os próximos capítulos. Ainda, eu poderia colocar tantos exemplos que o post inteiro não daria conta de falar tudo.)
Honestamente? Existe tanta coisa cringe nesse mundo que de fato só esse post não dá conta. Mas eu acredito também que ser (muito) cringe é não ter caráter.
Lady Trotsky, dama teimosa, cansada e mau humorada nesse momento, encerra a transmissão aqui e agora.

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terça-feira, 15 de junho de 2021

[Conteúdo Exclusivo de Plataformas Gratuitas] Crowley - Universo Expandido: A Longa Viagem de Volta - 6ª parte

 


Sinopse: Shion Tachibana é uma jovem psicóloga que decide ser hora de regressar à sua cidade natal, Colônia de Sacramento, para reencontrar velhos amigos de sua família e respirar novos ares. Ela não imagina, porém, que, ao saber da triste condição do jovem Jorge Franco, embarcará em uma jornada rumo a obscuros segredos guardados a sete chaves que podem colocar em cheque tudo o que ela conhece. Ou pensa que conhece.

Primeiras cinco partes: 

1ª - https://www.osvampirosportenhos.com.br/2020/06/conteudo-exclusivo-de-plataformas.html

2ª - https://www.osvampirosportenhos.com.br/2020/06/conteudo-exclusivo-de-plataformas_14.html

3ª - https://www.osvampirosportenhos.com.br/2020/06/conteudo-exclusivo-de-plataformas_28.html

4ª - https://www.osvampirosportenhos.com.br/2020/07/conteudo-exclusivo-de-plataformas.html

5ª - https://www.osvampirosportenhos.com.br/2020/09/conteudo-exclusivo-de-plataformas.html


6ª Parte - Inspetor Franco


Agora, não me surpreendo se Shion quiser sair de minha casa ou nunca mais falar comigo depois de ouvir semelhante disparate dito por mim.
Porque Helio tem toda a razão e ela igualmente, porém, preciso pelo menos ver com meus próprios olhos se estou ou não errado, porque temo pela vida de todos os habitantes da cidade, em especial Jorge e Shion, e o que menos desejo é uma nova tragédia. No entanto, as palavras dela surpreendem a mim e o legista: — Se deseja exumar a senhorita Farías para aliviar sua mente, não vejo motivos para não aceitar. Afinal, vampiros não existem e talvez, se a vermos como está agora, ficaremos mais tranquilos.
— Já te adianto que… — diz Gallardo, mas Shion interrompe: — Não será algo bonito de se ver, eu sei. Mas primeiro gostaria de ler os arquivos das mortes.
— Claro — meu amigo legista trata de enfim buscar os arquivos enquanto eu digo:
— Entendo que não acredite nessa história como um todo, mas infelizmente vivi isso e creia, eu também não acreditava. Mas, aquela noite em que fui investigar Vila Josefina me mostrou o quanto eu estava errado. Não apenas isso, quase morri e perdi dois colegas meus.
— O senhor teve muita sorte. Infelizmente uma dezena não teve — ela responde no mesmo minuto que Helio Gallardo volta com duas pastas contendo as fotos e laudos de necropsia das vítimas de Crowley e dos mortos a noventa dias. Eu conheço aqueles arquivos melhor do que o padre Carlos conhecia a Bíblia. Rio, com certa amargura, ao lembrar de Janet, a essa hora em algum lugar de Buenos Aires fazendo só Deus sabe o que, e jamais desejando voltar aqui.
Shion, sem nada dizer, começa a olhar os arquivos e sua expressão nada demora a tornar-se cheia de horror e lágrimas, pois com certeza nunca viu tanta crueldade em apenas algumas fotos. Não a culpo por sentir-se horrível, pois tenho os mesmos sentimentos, afinal, poderia ter sido meu filho naquelas imagens e isso me aperta o coração. Ou talvez Jorge poderia estar me vendo ali. Ao final daquela análise, ela está agoniada: — Isso… parece loucura. É a única coisa que me passa pela cabeça depois disso!
— Não estou nada surpreso, Shion. Eu me senti da mesma forma. Você ainda… quer ver a exumação do corpo de María? — pergunto com ar cansado.
— Sim — ela responde com firmeza, mas posso sentir à distância seu medo. O mesmo que o meu.
— Vou levá-los até o jazigo. Por sorte, eu tenho como abrir a capela e depois a tampa do nicho onde ela está e fechá-la sem ninguém saber. Que Deus nos ajude para essa história não chegar aos ouvidos errados — diz o legista indicando para sairmos com ele.
Andamos até os fundos do cemitério no mais absoluto silêncio, pois achamos melhor não despertar atenção de algum funcionário que possa por ali estar. Afinal, a tarde ainda está alta e pelo meu relógio, já passa das quatro e meia, portanto, ainda há gente trabalhando por aqui.
Nos fundos, a antiga parte deixa Shion bastante encantada, pois há muita História naquelas tumbas, mas a capela familiar dos Farías, mesmo não sendo rica e imponente como algumas localizadas na Argentina e na capital uruguaia, é grande, e bonita ao seu modo.
A cruz no topo é esculpida em terracota e a imagem de Cristo nela é incrivelmente realista. As paredes de fora são decoradas no estilo barroco, muito simples se comparadas a outras obras semelhantes. O lado de dentro, por sua vez, no qual entramos com a ajuda de uma cópia de chave guardada pelo legista, e que conheci quando sepultamos a pobre María, três meses antes, é decorado com arabescos neoclássicos devido à reforma mais recente, custeada por um governo do começo dos anos vinte. Sendo bem conservada até hoje pelos funcionários da municipalidade. Os vitrais, naquele momento, refletem os raios do sol, acabando por deixar o lado interior todo iluminado.
Sem demora, encontramos o túmulo de María. Cujos dizeres me doem até a alma, pois me recordo do momento em que, sob os prantos dos primos, duas tias viúvas e do irmão mais velho, Otilio, pois os pais morreram quando ela tinha treze anos, o marmorista colocou a lápide tampa com uma sorridente foto dela no seu dia de formatura como professora:

María del Rosario Farías Arruda
1969 — 1989
Devotada hija, querida amiga, por siempre amada.


— Que coisa triste. Tão nova e morrer de uma forma tão trágica. Isso não me é fácil mesmo meu conhecimento sendo grande sobre as causas de suicídio — Shion diz com tristeza, pois certamente se lembra de quando pegava a então pequena María em seus braços e dançava ao som de alegres músicas infantis. De repente, sinto vontade de chorar e peço a Deus que faça voltar aquela época bonita e inocente.
— Penso a mesma coisa. Ela tinha tantos sonhos, planos, objetivos. Tudo isso por culpa daquele monstro! — exclamo com profunda revolta, pois o sofrimento de Jorge ressoa com o meu e nada consegue tirar do meu peito o sentimento de raiva por todo aquele ocorrido.
Helio me chama após terminar de desparafusar a tampa. Ela é bastante pesada e exige a força de duas ou mais pessoas para ser carregada. Com cuidado, a colocamos no chão e em seguida retiramos o caixão de dentro do nicho, cujo peso é um pouco mais leve do que eu esperava. Talvez pelo corpo já estar com a decomposição esperada após três meses de morte. No entanto, quando abrimos a tampa, Shion tapa a boca segurando um grito e eu e Gallardo nos olhamos, incrédulos.
O ataúde tinha apenas pedras.
— Isso é impossível! Ela se expôs na luz do dia! Nós a vimos morrer! — o legista, já descontrolado em suas emoções, grita apavorado.
— Lo sé, carajo! Te olvidaste que yo y Jorge estabamos junto?! — olho sem acreditar em minha própria visão.
— Alguém… deve ter roubado o corpo. Há muitos casos de pessoas… Ai meu Deus, nem gosto de pensar nisso, mas existem… necrófilos. Se é que me entendem — ela diz tentando manter a calma e a racionalidade naquele momento quando Helio já está histérico e eu respirando fundo para não ter um surto.
— Por lo amor de Dios, en serio que estás hablando esto?! — o legista olha sem crer.
— Eu receio dizer que é bem verdadeiro. Por acaso nunca ouviram falar de Carl Tanzler e sua “noiva cadáver” Elena Hoyos? — ela pergunta como se ouvir falar disso fosse a coisa mais normal do mundo. Para uma psicóloga, no entanto, muita coisa fora disso é motivo de estudos.
— A quanto tempo eu não ouvia falar desse caso! Lembro da época da faculdade, onde os meus colegas, em uma aula de anatomia, falaram sobre esse caso e o nosso professor disse que o homem era pirado da cabeça — diz Helio conseguindo recuperar um pouco da calma.
— Bem, eu confesso nunca ter ouvido falar, mas posso imaginar que deve ter sido algo bem horrendo — digo imaginando o tipo de pessoa capaz de fazer semelhante coisa.
— Nesse momento, nós temos de investigar o que realmente aconteceu. Alguém certamente roubou o corpo e colocou pedras no caixão para disfarçar, mas isso teremos de saber com certeza por nossa própria conta porque cometemos uma contravenção muito séria. Podemos até ser presos se descobrirem que abrimos uma tumba sem autorização! — diz ela muito séria.
— Nem diga. Você tem completa razão! — Helio fecha a tampa do ataúde e resolvemos arrumar tudo de volta no lugar e voltar para o escritório para colocar as ideias no lugar e esfriar a cabeça com um bom mate. Definitivamente, Shion Tachibana é um achado precioso. Uma mulher madura, racional e precisa, com grande capacidade de fazer a coisa certa no momento exato.
Colocamos o ataúde rapidamente no lugar e com um pouco mais de demora, em razão do peso, botamos a tampa de mármore no lugar e Shion ajuda a segurá-la para Helio poder parafusá-la no lugar e assim finalmente podermos deixar o jazigo. Sem qualquer demora, voltamos à Morgue Judiciária, aliviados por não termos sido pegos no flagra, mas preocupados com nossa descoberta. Pois assim como Shion pode ter razão, eu temo que a verdade seja bem pior, porém, sem uma investigação mais aprofundada, não há como saber.
— Temos de começar a investigação pelo dia do sepultamento da senhorita Farías. O que pode me dizer sobre isso, Gallardo? — ela pergunta sem hesitar enquanto eu encho uma cuia com erva e Helio pega água no filtro e a põe em uma chaleira para esquentar.
— Se me recordo, logo após María se expor na luz do dia e consequentemente, morrer pela segunda vez, recolhemos o corpo. Durante a preparação, coloquei uma cruz em cima dele e depois o tranquei em um caixão selado com pasta de alho, uma fraqueza dos vampiros da qual lembrei graças ao filme do Bela Lugosi, para realizar o enterro no dia seguinte. As tias, primos e o irmão mais velho dela vieram para cá durante a tarde e velaram a moça até a manhã seguinte. Claro, estranharam o ataúde fechado, mas expliquei que o rosto tinha ficado deformado devido ao choque com o solo em razão da força da queda e os aconselhei a usar uma foto bem bonita em cima do ataúde. Ainda, achei melhor mentir sobre a causa da morte dizendo a eles que ela se desequilibrou e caiu da janela do apartamento enquanto a limpava. Não achei uma boa ideia contar do suicídio. Já bastou ao pobre Otilio perder os pais quando o pai saiu dirigindo bêbado e bateu o carro contra um muro alto — Helio responde acendendo o fogão.
— Eu geralmente não recomendaria mentir sobre esse tópico, mas creio ter sido a melhor ideia — diz Shion ficando pensativa por um tempo enquanto eu pergunto durante a preparação da cuia de mate: — Depois do enterro, que foi por volta das dez e meia daquele dia, você não viu nada suspeito? Nenhuma movimentação estranha?
— Nada mesmo. Tudo tão quieto e calmo quanto possível, mas foi difícil lidar com as tias chorosas de María e os primos e o irmão tentando acalmá-las. Foi uma cena e tanto. Uma tristeza de cortar o coração — responde Helio com melancolia enquanto eu relembro cada parte daquele triste dia. Jorge não saíra um minuto sequer de perto do caixão da namorada e quase desmaiara de fome e sede porque se recusou a comer ou beber qualquer coisa durante o velório e eu não sabia se ele a velava pela tristeza da perda ou se temia que ela se levantasse novamente.
— E depois de tudo? Você chegou a… vigiar o túmulo? — Shion pergunta.
— Com toda aquela preparação, nem mesmo eu teria coragem de me aproximar. O cheiro daquela pasta de alho é insuportável. Sei por que eu mesmo a preparei. Só não espantou os familiares porque eu dei um jeito usando flores de odor forte para disfarçar o cheiro na capela de velório — responde o legista e eu me seguro para não rir embora o momento para risadas seja pouco adequado.
— Imagino, porém, uma coisa me intriga: quem nessa cidade teria interesse em roubar um cadáver e com qual motivação? Embora eu não possa deixar de pensar em necrofilia por ser a maior possibilidade — diz Shion tendo um arrepio.
— Isso é ainda mais estranho, especialmente porque não há qualquer sinal de que alguém tenha aberto aquela capela ou o nicho nos últimos noventa dias! Eu teria visto algo quando estivemos lá dentro! Trabalho com investigação faz mais de vinte anos e o Franco já estava aqui bem antes de mim — Gallardo retira a chaleira do fogo enquanto fala.
— Considerando a falta de pistas para nos levar a um suspeito, eu diria que estamos lidando com um criminoso profissional. Sem digitais ou traços de tecido ou coisa parecida, é a única linha de investigação possível. O problema é: quem pode ser essa pessoa? — Shion diz certeira.
— Ou talvez… Deus, eu te peço que não seja isso — digo nervoso, pois já vi semelhante caso e sei o quanto o trauma de uma perda trágica pode trazer consequências ainda piores.
— O que você tem, Augusto? — Helio me olha sem entender.
— Talvez o irmão de María possa ser o responsável. Ou você não lembra de que Marta Gutierrez fez a mesma coisa com o pobre Andrés? — digo tendo a sensação de ácido correndo pela garganta enquanto falo.
— De novo?! Estás de broma, Franco?! — o legista me olha furioso e eu não me surpreendo nem um pouco, considerando que as ações de Marta tiveram as piores consequências.
Impossível esquecer as famílias das outras moças chorando a perda delas por conta da loucura da moça. Que inclusive era usuária recorrente de drogas, pois encontrei alguns saquinhos de pó na casa dela durante a perícia realizada logo após o assassinato da avó dela, que eu descobri, para minha infelicidade, ter sido obra do próprio Andrés retornado em monstro, sem contar a morte da própria irmã. Descoberta que fiz ao analisar a cabeça do cadáver e descobrir dois caninos crescidos.
O analista químico constatou, ao examinar o conteúdo dos saquinhos, ser cocaína, encontrada em uma dose considerável no corpo quando feita a necropsia nele. Tanto que, logo após o término da situação aterrorizante ocorrida esse ano, houve uma megaoperação de apreensão de drogas e armas e a prisão de vários traficantes. Dois deles aqui em Colônia, um deles sendo o fornecedor da finada Marta.
— Considerando o caso de Marta Gutierrez, a probabilidade é bem alta. Ainda mais porque nem todo mundo consegue lidar com a perda. Já atendi muitos pacientes nessa situação. Conheço cada história que os deixaria sem chão — diz Shion aceitando o mate logo depois de eu tomar o primeiro, pois gosto do sabor amargo da erva.
— Até investigarmos mais a fundo, não temos como acusar o Otilio. Até porque ele nem morava mais com a María. Inclusive ela vivia aqui porque estava concluindo a escola e o curso de magistério e cuidava de uma idosa, atualmente em uma geriatria porque ela não quis mais nenhuma cuidadora particular, pois para ela, a senhorita Farías era única — diz o legista e eu assinto com a cabeça, pois a pobre Gerarda, ainda enlutada pela perda da “dama de companhia”, amava minha ex-nora como a um familiar e chorou muito ao saber da morte dela.
— Deveríamos, creio eu, traçar um perfil do irmão de María Farías e eu poderia analisá-lo para encontrar algum traço suspeito e talvez, uma evidência de que ele poderia ser capaz disso — Shion propõe a única coisa realmente possível naquele momento.
— Aí nosso problema fica um pouco mais complexo: como faremos isso sem despertar suspeitas? Eu duvido muito dele não achar estranho se nós o procurarmos ou conversarmos com pessoas próximas dele do nada. Tem de haver uma maneira de não ficarmos na estaca zero — digo com absoluta certeza, pois em nenhum momento algum dos familiares de María se ausentou do velório, exceto para ir ao banheiro ou tomar ar fresco. Porque como a capela do cemitério não é das mais espaçosas, ficou fácil manter vigilância em cima de todos naquele dia. Desde todo aquele ocorrido, minha paranoia já grande ficou maior ainda.
— A única forma possível agora é investigarmos o depois do enterro, pois o corpo foi roubado nesse meio tempo. Possivelmente alguns dias depois. Talvez uma semana ou um pouco menos, considerando o estado intacto da cena — Shion diz, mas de repente lhe ocorre algo, pois toca meu braço: — E se alguém do próprio cemitério encobriu o roubo por alguma razão? Porque não acho possível não haver tido uma movimentação suspeita dias após o enterro. Estou certa de que alguém trabalhando dentro do cemitério está envolvido, por isso não soubemos antes!
— É uma probabilidade, mas quem poderia ser? O Cemitério Municipal tem bem poucos funcionários: um zelador, um guarda noturno, um diurno, um coveiro, além do legista e do embalsamador de cadáveres, já que a Morgue fica perto. Mas minha maior suspeita, considerando o quanto já conheço disso, é que tenha sido o guarda da noite. Afinal, qual a melhor hora para roubar um cadáver do que quando ninguém está olhando? — digo, mas Helio discorda:
— Qualquer um deles poderia ter feito isso. É só dar um bom dinheiro, honestamente.
— Mas considerando como os fatos ocorreram, é difícil duvidar — respondo na mesma hora e continuamos tomando o mate.
— Já falei e repito: temos de investigar com cuidado os fatos. Não podemos sair atirando de um lado a outro sem pensar. Temos de olhar cuidadosamente e a partir disso, tirar alguma pista que nos leve a quem fez — Shion diz muito séria e quando Gallardo vai encher mais um mate, vê o relógio: — Já vai passar das cinco e meia da tarde. Daqui a pouco vai começar a anoitecer. Vamos terminar de tomar e depois é melhor vocês irem. Não sei o quanto é seguro andar de noite por Colônia.
— Pelo menos até agora, está bem seguro andar à noite, mas vamos seguir seu conselho — digo, mas no fundo, um instinto me alerta de a resposta de tudo isso ser muito pior do que um simples roubo de cadáver.
María Farías, eu tenho quase certeza, ainda pode estar viva, Deus sabe onde e Ele sabe o quanto preciso, pela segurança de meu filho Jorge, a menina Shion e toda a cidade de Colônia do Sacramento, estar pronto para uma nova ameaça.
Ou estou apenas sendo paranoico?

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terça-feira, 25 de maio de 2021

A Volta de uma Dama que nunca realmente se foi (mas deveria ter voltado bem antes)

 


Minhas teimosas, teimosos, teimoses, tudo bem com vocês?

Eu sem dúvida devo ser a blogueira literária mais desleixada do mundo, e assim não tem como construir uma boa base de leitores, porque faz três meses que não posto nada no blog. Mas mesmo estando mais no Facebook, Twitter e Instagram, não estou fazendo meu trabalho como devo e vocês sem dúvida mereciam muito mais de mim.

Só que esse ano anda muito pesado por tudo o que anda acontecendo e eu me desanimo com uma brutal facilidade. Sem contar que a minha falta de inspiração para escrever e até mesmo ler interferiu muito na qualidade do que eu andei produzindo na tentativa de voltar o blog antes. Agora, porém, as coisas começaram a realmente caminhar porque nesse meio tempo, o Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, mais conhecido pela sua adorável alcunha de Fantaspoa, ocorreu entre os dias 09 e 25/04/2021.

O festival, que costuma geralmente ter apenas dez dias, acabou com dezesseis em razão da gigantesca quantidade de espectadores e visualizações, já que os organizadores, o João Pedro Fleck e o Nicolas Tonsho (MELHOR dupla), além dos colaboradores Felipe M. Guerra (Pessoa linda da porra) e Daniela Monteiro (musa maranhense, S2) não pouparam esforços em proporcionar a mim e outros milhares o melhor em cinema de mais de quarenta países e uma centena de idiomas.

Mas mesmo com toda essa maravilha me tendo sido proporcionada no mês do meu aniversário, com o dia inclusive tendo caído na semana extra, ainda assim andava desanimada do blog e sem inspiração, o que é muito pior. Provavelmente porque voltar à realidade depois de tantos dias maravilhosos seguidos foi muito difícil e também as notícias foram indo de mal a pior, o que minou muito a minha felicidade, a qual eu só encontrei escrevendo e estando do lado dos meus familiares, ainda que às vezes seja meio complicado por conflito de temperamentos e gerações.

No entanto, uma coisa ainda mais difícil me aconteceu e isso aumentou meu desânimo mais ainda: vi, nesse meio tempo, meu sonho de publicar virar um amargo pesadelo. Pois a editora pela qual eu ia publicar, a Constelação, decretou falência em março e nesse meio tempo estou em conversa com uma pessoa de lá sobre como vai ficar a minha situação, por isso não entrarei em mais detalhes.

Mas hoje, mesmo que a postagem vá sair numa horinha ingrata, eu decidi dar um jeito nesse atraso todo com três posts semanais, na ordem que eu já havia colocado antes…

Sobre o Universo – Personagens reais e fictícios, locais, instituições, ordens religiosas, registros em diários, noitários, notas e gravações, relatos orais, pontos importantes da História Argentina (esses últimos podem demorar a aparecer porque na maior parte dos casos eu tenho de traduzir os textos). Esses podem, e vão, aparecer no meu Instagram, onde planejo postar diariamente.

Lady Trotsky Revisa/Resenha – Filmes, livros, séries. Muitos desses sendo coisas bem fora do circuito, no estilo que eu gosto. – risos –

Meus dois centavos sobre… – Um texto pequeno ou maior sobre algum assunto complicado e/ou polêmico.

Conteúdo Exclusivo de Plataformas Gratuitas – Universos Expandidos e Compartilhados de outros criadores que merecem ser conhecidos. (Com a devida autorização dos criadores originais e sem qualquer comprometimento financeiro.)

Por fim, deixo aqui a minha promessa (que dessa vez eu vou cumprir a sério) de proporcionar a vocês a qualidade que há tempos procuro fazer.

Espero de coração a paciência de vocês e encerro aqui a transmissão.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

[Lady Trotsky Resenha] Drácula - Bram Stoker

Título: Drácula
País: Inglaterra
Autor (a): Bram Stoker
Ano: 1897
Classificação: https://1.bp.blogspot.com/-zDdo-Rt0Er8/Xmrs0wjvBdI/AAAAAAAAMLk/9qhhhyAD2ysL77kXD7mLgq-nz8CQbxsGgCPcBGAYYCw/s1600/Cinco%2B%252B%2BFavorito.jpg

Sinopse: Um pavoroso embate entre bem e mal que seduz milhares de leitores há mais de um século. Fonte de inúmeras adaptações para telas e palco, inspiração para músicos, escritores e artistas de todas as áreas, Drácula é um ícone incontestável e obra máxima de Bram Stoker. De um lado o conde Drácula – o mais famoso vampiro da literatura. De outro, um grupo unido e decidido a caçá-lo: Jonathan e Mina Harker, o médico holandês Van Helsing e seus amigos.

 


Um romance de 1897 ainda hoje chama atenção mesmo todo mundo conhecendo a trama de cor e salteado mesmo nunca tendo lido o livro. Afinal, quem até hoje não ouviu falar do grande “rei dos vampiros”, Drácula? Se nunca ouviu, siga em frente com a leitura da resenha. Se ouviu, mas não leu o livro, acredite, você vai se interessar por ele quando chegar ao fim desse texto.
Drácula, publicado em 26 de maio de 1897, ou seja, há 120 anos, não é um livro para exatamente qualquer leitor, ainda mais quando as coisas mudaram muito em todos esses anos. Por que?
É um livro longo (as edições variam entre 370 e 500 páginas, dependendo da editora e da brochura) embora não muito complicado, porém, é preciso ter paciência com alguns pontos que hoje não são tão atraentes para os leitores apesar de eu particularmente gostar. Quais seriam eles?

“A população da Transilvânia é formada por quatro nacionalidades distintas: ao sul, os saxões, aos quais se misturam também os valáquios, que são descendentes dos dácios. A oeste encontram-se os magiares e, finalmente, nas regiões norte e leste, os tchecos. Estou me dirigindo justamente à região habitada por esses últimos, os quais alegam ser descendentes de Átila e os hunos. Talvez haja uma certa verdade nessa pretensão pois, quando os magiares conquistaram o país, ainda no decorrer do século XI, já encontraram esse povo ali fixado. Lembro-me de ter lido a afirmação de que todas as superstições existentes neste mundo se concentram na ferradura dos Cárpatos, como se esse ponto representasse o centro do vórtice das mais férteis imaginações. Se essa suposição corresponder à verdade, então minha permanência em tal ambiente se tornará sumamente interessante. (Lembrete: preciso perguntar ao conde tudo sobre essa teoria.)”
A narrativa em forma de cartas, diários, reportagens, mensagens taquigráficas e outras formas de comunicação usadas na época que às vezes pode dar aquela cansada básica em quem está lendo. Porém, é justamente isso a tornar o livro tão rico no quesito narrativa, pois conhecemos o ponto de vista do Dr. John (Jack) Seward, de Jonathan Harker e sua noiva, depois esposa, Wilhelmina Murray (Harker), carinhosamente chamada de Mina, além de um único capítulo do diário de Lucy Westenra, melhor amiga dela, vitimada durante a trama. Sei que soa como spoiler, mas duvido alguém não saber disso. Ademais, essa cena dificilmente não aparece nas adaptações cinematográficas e teatrais do livro. Ainda, a narração dos fatos reforça a sobrenaturalidade da trama embora eles só venham a descobri-la na metade do livro, o que acho uma sacada genial não importa quantas vezes eu releia. (Até hoje foram quatro.) Além, é claro, de ser impossível não admirar a extensa pesquisa feita por Stoker para dar maior veracidade à história.
Apesar de termos apenas esses pontos de vista, eles conseguem passar os sentimentos de outros personagens do livro, como o professor Abraham Van Helsing, o responsável por revelar a nefanda verdade aos outros personagens e Arthur Holmwood, o noivo de Lucy e um dos que se vê forçado pelas circunstâncias a acreditar que há coisas além da compreensão humana.

“Hoje o dia está e, enquanto escrevo, o sol se oculta por trás de espessas nuvens – cúmulos-nimbus – bem acima de Ketlleness. Tudo se acha impregnado do mesmo tom acinzentado, exceto a relva verdejante, que mais parece uma faiscante esmeralda em meio à ausência de cor.
São cinzentos os rochedos e as nuvens, ainda aureoladas pelos raios solares e suspensas sobre as vagas de um mar também cinzento e que, por sua vez, vai se confundir com os cinzentos recortes arenosos das pontas litorâneas. As ondas rolam incessantemente sobre os baixios e recifes com estrondoso fragor, que parece ficar abafado pela névoa vinda do quebra-mar.”
Sendo essa a parte que mostra, com um bom número de descrições e diálogos muito interessantes entre Helsing e Seward, o contraste entre a crença no sobrenatural e o avanço da ciência que torna possível desmistificar alguns fenômenos que muito antigamente as pessoas tratavam por eventos sobrenaturais. Sendo um exemplo justamente o mito do vampiro, meu tema de TCC em 2011. Apenas pensem, baseados no que escrevi há pouco: e se fossem vocês que estivessem nessa situação, como agiriam? Se soubessem que alguém amado por vocês está virando um monstro chupador de sangue, o que fariam?
No caso de Drácula, os personagens não pensam duas vezes em exterminar Lucy por mais que a adorem, porém, estamos falando de um livro produzido ainda na Era Vitoriana, onde imperava um código moral hoje considerado um absurdo inacreditável. Ou seja, a antes pura e casta senhorita Westenra agora era um ser maligno e luxurioso cuja existência era uma afronta aos princípios da natureza (isso soa familiar?), assim como o vampiro Drácula o é.

“Todos têm sido tão gentis comigo! Sem sombra de dúvida, o prof. Van Helsing já me conquistou! Não consigo entender, porém, porque as flores lhe provocaram tamanha ansiedade. No entanto, algum motivo deve existir, pois desde então elas já transmitem uma sensação de conforto e tranquilidade. Sinto que não terei mais medo de ficar sozinha à noite. Poderei me recolher para dormir, sem nenhum temor. O impacto das asas de encontro a minha janela já não me assusta. Ah, finalmente darei um fim à interminável luta que travava contra o sono. Adeus agonia provocada pela insônia e o sofrimento causado pelos infindáveis fantasmas da imaginação.”
O personagem título, sem mentira alguma, é o grande vilão da história e podem ter feito todas as adaptações possíveis e imagináveis, que isso não vai mudar, na essência. O Conde Drácula é maligno, manipulador, inescrupuloso e não hesita em prejudicar meio mundo em nome daquilo que deseja: saciar sua sede de sangue em um local cheio de potenciais vítimas. No entanto, ele sofre do mal da soberba e isso pode custar a ele um preço bem alto, pois por mais que ele possa ter o luxo de viver muito e esperar, isso não quer dizer que a humanidade, no caso, os protagonistas humanos do livro, sejam tolos o suficiente para ficar parados esperando acontecer o pior.

“Com sua chave de fenda, o professor removeu a tampa do caixão. Atento a cada movimento e muito pálido, Arthur observava tudo silenciosamente. Assim que a tampa foi retirada, ele deu um passo à frente. Evidentemente não sabia da existência de um invólucro de chumbo ou talvez não tivesse pensado sobre esse detalhe. Ao ver o extenso rasgo aberto na lâmina do revestimento, uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto, mas foi apenas uma reação passageira, seguida por uma lividez quase irreal. A despeito de tudo, continuou calado. Van Helsing afastou a parte solta do invólucro. Todos nós olhamos e retrocedemos.
A urna estava vazia!”
Ainda, pelo menos mais um ponto pode incomodar muita gente: o quase nenhum desenvolvimento de personagem. O que sabemos de cada um deles, até mesmo do vampiro, no caso, as backstories, são informações esparsas, ainda que não de modo aleatório embora eu me obrigue a reconhecer que houve uma evolução durante a trama, pois todo mundo se vê mudando para algo melhor depois da inacreditável série de eventos. Embora a mentalidade vitoriana se faça muito presente nas atitudes dos personagens, no que destaco algumas cenas de interação entre Lucy e seus “pretendentes”, o que pode incomodar muita gente, já que, se vocês pesquisarem mais a fundo, verão nela muitos pensamentos bem preconceituosos, especialmente contra os costumes “bárbaros” dos estrangeiros e a imensa dedicação à preservação da pureza das moças. Se bem que muita coisa ainda hoje não mudou.

“O professor girou a maçaneta, mas a porta não cedeu. Todos nos lançamos contra ela, que se escancarou em um estrondo, e quase caímos no meio do quarto. Van Helsing chegou a cair, pois o vi tentando levantar-se. A cena a minha frente me deixou paralisado. Senti meus cabelos se arrepiarem e meu coração quase parar.
O luar estava tão forte que clareava o ambiente, apesar das venezianas amarelas. Estendido na cama junto à janela, dormia Jonathan, com o rosto congestionando e respirando ruidosamente, como em pleno estupor. E perto dele, de frente para a janela, via-se a figura alva de sua mulher. Em pé, ao lado de Mina, havia um homem alto e magro, trajando vestes negras. Seu rosto permanecia de perfil para nós, mas o reconhecemos de imediato, era o conde... em todos os detalhes, inclusive a cicatriz que desfigurava sua testa.”

Apesar de todas as controvérsias que podem ser despertadas, Drácula permanece um grande clássico e dificilmente cairá no esquecimento, ainda mais quando edições novíssimas em folha apareceram ainda ano passado.
Uma das minhas, que aparece nas fotos, é da Darkside e sem dúvida uma das edições mais lindas e completas existentes nesse planeta. Verdade que eu paguei um pouquinho mais caro que o normal, mas sinceramente? Não me arrependi nem por um momento. Só olhem as fotos e me digam: é ou não é um produto lindo?
Não apenas um produto, sendo absolutamente sincera. Um excelente livro, seja pela descrição fidedigna da Era Vitoriana, seja pela história do vampiro Drácula ou pelo modo como introduziu o vampiro em definitivo no rol da literatura fantástica. 

Por isso, esse sem dúvida é o livro que você procura e a Lady Trotsky indica.


Fotos da Edição Dark da Darkside:





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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

[Sobre o Universo] As Mulheres Mágicas – Por Matilde Olmos y Piñedo (Professora e Feiticeira Elemental da Água)

 


Ninguém sabe ao certo quem foi a primeira das Mulheres Mágicas, comumente conhecidas (leia-se, pelos humanos) como Bruxas (na verdade uma das categorias, mas isso explico depois), do mundo.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

[Sobre o Universo] Uma vez mordido, duas vezes tímido e o nascimento de "Irreversível" (Vol. 1)

 


Eu começo essa postagem perguntando quem aqui é do tempo do Cinema em Casa, no SBT ou da Sessão da Tarde, na Rede Globo.


A dama teimosa aqui cresceu com ambos os programas e foi no Cinema em Casa, lá no ano de 2001, em seis de abril, data que eu só descobri pesquisando na internet porque não lembrava, exceto que eu era bem mocinha (eu ia fazer treze anos no dia 20 de abril de 2001), quando, pela primeira e única vez, pelo menos até o ano passado, assisti Procura-se um rapaz virgem (1985), um dos muitos “clássicos nostálgicos” da década de oitenta.


Eu chamo de “clássicos nostálgicos” porque assim como esse filme que menciono, alguns desses filmes que passavam nessas sessões não são exatamente o que eu chamaria de um filme impecável. Uma boa parte deles envelheceu mal, ou muito mal, e outros assistimos hoje e ficamos impressionados com a quantidade de furos de roteiro ou incoerências e até mesmo aquela dose de politicamente incorreto que hoje deixa muita gente p da vida. Se eu não contar os efeitos especiais, as maquiagens, a cenografia e um sem número de aspectos técnicos que avançaram muito nas últimas décadas.


O caso de Procura-se um rapaz virgem, ou Once Bitten, o título original, originado de um ditado em inglês: Once bitten, twice shy., é um desses filmes que, assistindo hoje, é fácil perceber os furos de roteiro e as incoerências. Em especial a nenhuma preocupação dos roteiristas em explicar pelo menos um pouco do universo vampiresco dentro do filme. Porque a única explicação é mais uma paródia do que propriamente um aspecto coerente. Até porque nem na mitologia original isso existia. Caso estejam se perguntando, esse ponto foi criação da literatura e foi exaustivamente usado por décadas nos filmes.


Sim, teimosos, é um filme de vampiros. Mais precisamente de uma vampira, a Condessa (Lauren Hutton), que precisa beber pelo menos três vezes o sangue de um rapaz virgem de modo a se manter jovem e bela e nesse ínterim ela conta com a ajuda de um grupo de vampiros menos importantes, cinco homens e duas mulheres, na tentativa de evitar um desastre. Nesse meio tempo, ela encontra Mark Kendall (Jim Carrey, em seu primeiro protagonista), que pode ser a solução de seus problemas, mas a namorada dele, Robin (Karen Kopkins), pode colocar tudo a perder com sua esperteza.


Eu menciono os vampiros menos importantes porque aí reside uma das maiores incoerências, se não a maior incoerência, do filme: se ela precisa de sangue virgem masculino nesse caso, porque tem duas mulheres no grupo? Das duas uma: ou ela pode apelar para sangue feminino ou elas caíram de paraquedas ali por mordida de algum deles. Mas ninguém faz questão de explicar. Sem contar que o fato do Mark e da Robin terem conseguido escapar, quando em teoria isso seria impossível, é uma forçada de barra belíssima, mas como é uma comédia, é relevável, por assim dizer. 


Até porque como todo, ou pelo menos a maioria, o filme americano dos anos oitenta e noventa que se preze, o Mal não vence mesmo se a solução narrativa tiver de ser a mais forçada possível.
Depois de todo esse comentário, sem dúvida serei questionada sobre isso: Procura-se um rapaz virgem é um bom filme? Dentro da proposta dele, acaba sendo, mas nem tanto. Até porque o humor do filme é bem datado e alguns pontos hoje fazem as pessoas ficarem com a melhor cara de: por favor, sem essa! Não é impecável, mas ele cumpre a promessa de entreter e satirizar a temática vampírica, já que esse era o objetivo principal desde o princípio porque o fato de ser uma comédia já implica que não é para ser levado a sério.


Mas a imaginação de um autor dificilmente não leva a sério alguma coisa.
Mesmo que seja para criar algo em cima.


Inspirado na recente tendência de alguns filmes catástrofe e terror de focarem mais no lado de quem é afetado pela situação do que na situação por si mesma. Citando os exemplos de Halloween (2018), que apesar do mesmo nome, é a sequência direta do clássico de 1978 ignorando totalmente a franquia, e o recente Destruição Final: O Último Refúgio (2021).


Assim, nasceu mais uma história do nicho dos Vampiros Portenhos Além do Prata, com o título de Irreversível.
Porque eu autora me perguntei como quatro pessoas, três rapazes e uma moça do High School (o equivalente americano do Ensino Médio), lidariam com o fato de terem sobrevivido a uma horda de vampiros, considerando que tudo o que eles mais amavam podia estar em perigo e eles tendo de lidar com o fato de terem sido tapeados por meros humanos.
Porque eu autora dei um nome e uma história para cada um dos vampiros menos importantes, que no livro ganham uma backstory, motivações, paixões, personalidade, segredos, problemas, amores, família. Tudo o que um bom personagem precisa para que a história ande e venha a ser como é. Porque nenhuma história realmente se sustenta sem eles. Sejam os principais ou secundários.
Porque eu autora…
Transformei Mark Kendall em Patrick Wilder, um estudante sonhador que no futuro quer ser engenheiro robótico, mas sabe que esse é um sonho difícil. Fiz Robin Kierce virar Cassandra Rossellini, uma ítalo-americana de sangue quente que não pensa duas vezes em comprar briga pelo que considera certo e defender as pessoas que ama mesmo que se machuque no processo. Já Jim e Russ se tornaram James Parker, um garoto indígena com o sonho de ser químico e Riley Padilla, um rapaz latino amante de biologia que sempre está ao lado do irmão de criação Jim. Esses quatro, por centenas de páginas, se verão enfrentando muitos obstáculos.
Transfigurei a Condessa na Baronesa Juliette Meinster, uma vampira de passado traumático e difícil que tão apenas quer continuar viva e proteger seus discípulos das decisões ruins que teve de tomar em nome de ser livre. E Sebastian tornou-se Orlando, uma pessoa não-binária que, não importa o que, sempre está ao lado de sua melhor amiga, praticamente irmã e por ela é capaz de enfrentar um exército inteiro sem armas.
Criei sete vampiros muito diferentes entre si, mas que se complementam de uma forma única.
Um ex-soldado confederado, John Hooligan, que perdeu a família de forma trágica e busca vingança contra o responsável. Há nele algo meio Red Dead Redemption e dos faroestes clássicos.
Molly Winters, a mais velha do grupo de vampiros após sua mãe de criação, a Baronesa e Orlando, que na sua primeira infância nunca recebeu afeto ou carinho por ter nascido em uma cela de prisão.
Um piloto Ás da Primeira Guerra, Henry Dermitt, abatido por ninguém menos que o próprio Barão Vermelho. Que tenta manter a sanidade no meio de um mundo tão caótico enquanto mostra sua gratidão e lealdade à Juliette mesmo algumas vezes se valendo de meios questionáveis.
Dois gêmeos idênticos, Vermont e Villeneuve Durand, criados sem pai no circo por uma mãe artista e que luziram como artistas vaudeville no final do século dezenove. Mas a tuberculose decidiu fazer morada em um deles e a decisão tomada por ambos lhes mudou a vida para sempre.
Joseph Lillard, um ex-grumete irlandês do começo do século dezenove que carrega consigo toda a amargura de uma vivência repleta de abusos psicológicos e violência enquanto vivia nos inóspitos navios mercantes, de guerra ou piratas mar afora. Faz o arquétipo do personagem sombrio que não demonstra qualquer sentimento, mas… Tem uma forte inspiração no protagonista do anime Gun Sword, Van.
Elvira Piper, a mais nova do grupo, uma hippie que foi encontrada no famoso Festival de Woodstock e no grupo entrou porque a Esclerose Lateral Amiotrófica iria matá-la dentro de alguns anos. Ela é quem sempre está buscando conhecimento e tenta compreender o funcionamento do sistema vampírico de modo a ajudar a Baronesa Juliette a não depender de sangue virgem para manter seus poderes estáveis.
Sim, aqui a virgindade do sangue totalmente é mágica e sobrenatural e por isso esse sangue é tão cobiçado pelas bruxas das trevas. O caso de Juliette, entretanto, é bem diferente, mas ainda estou criando a situação.
Nessa minha nova história, também, introduzimos um novo tipo de seres: os Aspers (a pronúncia é éspers). Que basicamente são os mutantes do meu universo, exceto que não são nascidos com alterações genéticas, mas com a capacidade de usar a Energia Gaia, aqui conceituada como a própria força vinda da Mãe Terra. A qual poucos tem a real capacidade de usar e mesmo os usuários precisam ter cuidado ou se arriscam a morrer se usarem os poderes de forma imprudente.
No meio de toda essa confusão, Cassandra, a minha mais nova protagonista, vai descobrir mais de si mesma do que nunca pensou e segredos que ela jamais pensou que quem ela menos espera guardava. Patrick, disposto a sempre estar ao lado da garota que ama, vai testemunhar o melhor e o pior da humanidade e ver suas crenças e princípios sendo brutalmente desafiados. James e Riley, como leais amigos que são do casal, também estarão dispostos a ficar do lado deles e junto com eles suportar todas as adversidades que o destino vai fazer o favor de colocar no caminho deles.
Por fim, por mais datado que esse filme seja, ele acabou sendo responsável por ser o embrião de um projeto pelo qual estou apaixonada e que eu espero que apreciem conforme eu for mostrando.
Lady Trotsky encerra a transmissão aqui, agora. 

PS: Uma ideia dos personagens...









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