segunda-feira, 27 de julho de 2020

[Conteúdo Exclusivo de Plataformas Gratuitas] Crowley - Universo Expandido: A Longa Viagem de Volta - 4ª parte


4ª parte: Inspetor Franco

Será mesmo uma boa ideia contar a verdade para Shion?

Olho para a imagem da Virgem Maria na parede da sala perguntando à Mãe de Deus, e a Ele também, se sigo um caminho realmente sábio. No entanto, já não tenho mais opções para salvar Jorge da morte, pois sinto que se não agir logo, ele trilhará um caminho sem volta.

Por isso esperei a manhã acabar para conversar mais calmamente com minha agora hóspede, pois somente sabendo tudo poderá achar um caminho para lidar com meu filho. Mas minha felicidade é muita pelo primeiro avanço em meses, o de sair do quarto. Me atrevo, no entanto, a perceber mais um: ele pareceu sorrir ao vê-la. No entanto, penso ter sido só impressão, mas no fundo, torço para realmente tê-lo visto dar um sorriso. Embora não me surpreenda caso tenha sido só ilusão.

Porque três meses e alguns dias não é tempo suficiente para superar uma perda como a de María, menos ainda esquecer aquela chacina na casa dos Gutierrez e dos corpos em Vila Josefina, tudo ocorrido em menos de sete dias.

Sem contar a tragédia de 1987, quando Adrian Crowley regressou da morte pela primeira vez. Mais de dez mortos, dois sendo colegas meus da polícia no que eu quase sucumbi nesse dia, uma onda de pânico pela cidade e o começo de uma cobrança forte do Ministério da Segurança em relação aos crimes. Que inclusive pensei, a princípio, assim como um dos meus finados parceiros, serem obra de terroristas, ou, apesar de nunca ter dito em voz alta, a parte podre dos militares, cujos motivos para agir envolvem grande sede de poder e controle. Embora eu não negue sobre muitos adeptos do regime comunista da URSS também serem capazes de semelhante coisa. Mas como falei naquele dia: terroristas não quebram espinhas dorsais nem chupam sangue.

Pode ter parecido estupidez pensar isso, mas, considerando a violência testemunhada por tantos nas ditaduras ocorridas nessa parte do continente, uma delas ainda vigente, no Chile, não era impossível imaginar que planos nefastos essa gente teria. Afinal, uma das melhores formas de dominação do povo é mantê-lo com medo e, em troca de submissão obediente, dar-lhe proteção, mesmo sendo uma grande falsidade a sensação de segurança.

Vejo Shion voltar após fazer a higiene bucal depois de almoçar um chivito preparado por Adela, que além de talentosa doceira, sabe preparar sanduíches deliciosos. Ela senta-se com delicadeza no sofá, seu semblante mostrando a espera pela conversa.

Hesito, no entanto. Sei que minhas palavras soarão absurdas e provavelmente ela pensará de tudo isto ter sido uma histeria coletiva. Razão pela qual, durante a manhã, passei na delegacia para recolher a caixa do caso de 1987 e a outra do mais recente, pois acreditei que tal apoio me ajudaria a enfrentar isso mais facilmente. Ledo engano. Me sinto mais inseguro a cada minuto, até mesmo penso em desistir, mas Shion segura minha mão com delicadeza...

— Pode contar comigo, Franco. Eu disse que irei ajudar você e Jorge e vou, mas preciso da sua sinceridade com relação ao acontecido.

Tendo um sopro de incentivo mais do que bem-vindo, começo a falar, mas as palavras me saem da boca como ácido, pois revivo cada minuto daquele horror como se pudesse ver tudo passando em uma tela de cinema. Mostro evidências e fotos para ilustrar e mesmo me doendo tudo por dentro, falo sobre Crowley e a espantosa verdade sobre ele. Explico, do modo como sei, todos os fatos, sem esquecer de mencionar Andrés, o que tinha melhor conhecimento sobre isso e a condição da criatura, e sua trágica morte.

No entanto, quando falo dos fatos recentes, mal consigo fazê-lo sem começar a chorar, pois quase perder meu filho impactou muito meus pensamentos acerca da vida e de como a estou vivendo, pois em 1987 eu nem pude me preocupar com isso, considerando ter uma cidade para resguardar.

Ao terminar de falar, sinto como se tirasse um peso das costas, mas ao mesmo tempo, a boca ainda saboreia o gosto amargo daquela conversa: — É isso. Não me espanto, porém, se não acreditar. Mas tenho outras provas, se quiser vê-las.

Shion me olha com horror, seus bonitos olhos orientais quase a chorar, mas ela claramente está se segurando para me passar força. Falo: — Não precisa esconder seus sentimentos. Você não é somente uma psicóloga, é um ser humano e... a considero... como uma filha.

Ela pranteia, abalada com tudo o que ouviu, mas sua expressão diz claramente sua divisão entre acreditar ou não em minhas palavras, afinal, é uma mulher da ciência, não posso esperar sua crença em fatos fora do cientificamente explicável. Ela me diz, entretanto, já recomposta:

— Se há mais provas, quero vê-las. O senhor sabe, não posso acreditar em 100% do que me diz considerando... a inexistência de tais coisas.

— Irei levá-la ao Cemitério Municipal e à Basílica. Nesses lugares têm todo o necessário para provar minhas palavras, mas, não espere ver coisas bonitas porque infelizmente não há nada bonito nisso — digo já ficando em pé e quando Shion levanta, nós dois levamos um susto...

— Eu exijo ir com o senhor. Você não a colocará em perigo — Jorge surge na porta da cozinha movimentando a cadeira de rodas com incomum rapidez e parece querer levantar-se dela, mas está evidente que os meses sem andar trouxeram consequências sérias.

— Filho! — corro até ele e mal contenho a felicidade ao vê-lo voltar a falar e tentando andar após três meses, porém, o olho sério: — Você não está em condições. Está há muito tempo sem andar. Como pretende ir conosco?

— As muletas que eram da mamãe vão servir. Eu falo com o Dr. Cardozo depois, mas por favor, me deixe ir. Shion pode correr perigo, pois não sabemos se María está realmente morta — ele diz determinado a sair conosco mesmo mal podendo se levantar, pois a coluna e as pernas estão bem travadas devido aos meses sem movimento, pois ele ainda não começou a fisioterapia para firmar os movimentos após colocar pinos na coluna.

— Desde quando estava ouvindo a conversa? — ela pergunta com espanto e não sabe ainda se crê ou não em tudo o que ouviu. Posso não ter experiência com psicologia, mas lido com pessoas todos os dias e já conheço seus meandros.

— Fiquei na cozinha almoçando depois de todos saírem — diz meu filho com um suspiro, mas depois sorri, pela primeira vez em 90 dias: — Shion, bem-vinda de volta. Estou... tão feliz em revê-la. Você se tornou uma mulher muito linda.

Gracias, Jorge. Estou mais feliz ainda por ouvi-lo falar e... por querer me ajudar, mas, o seu pai vai me proteger, estou certa. Por favor, primeiro procure o hospital e trate de recuperar os movimentos direito. Nesse estado, você não conseguirá nem ao menos sair. Te peço, do coração — ela se aproxima e se abaixa, pegando as mãos dele.

— Pai, a qualquer custo, proteja Shion. Não sabemos que tipo de semente maléfica Crowley pode ter deixado aqui além da que matamos aquela vez e María — diz ele com firmeza e depois sorri para nossa hóspede: — Se me pede, farei, mas lhe peço, cuide-se, não saia de perto do meu pai em qualquer hipótese.

— Claro — ela responde tentando entender como tal cadeia de eventos aconteceu tão rápido. Não me espanta sua falta de entendimento, pois eu mesmo ainda estou algo confuso, mas, a sensação de perigo pode ter despertado algum instinto de proteção dele, um provável motivo para ele ter voltado a falar e tentar andar de modo repentino. Pois meu filho herdou da mãe a grande necessidade de proteger e o maior ainda senso de justiça, sem falar da incrível vontade de fazer a coisa certa.

Algo dentro do meu coração de pai, porém, me diz: a presença dela aqui não é por acaso. Deus tem algum plano, certamente, mas o Diabo também tem suas artimanhas, por isso me determino ainda mais a cumprir a promessa feita a Takeshi Tachibana.

Protegerei Shion, se preciso, com minha vida.


Sobre Renata Cezimbra

Brasileira e gaúcha com os dois pés e muita imaginação na região do Prata, pois é lá que começa o universo dos Vampiros Portenhos. Onde convergem os vórtices das mais férteis referências de uma dama teimosa, que aprecia pitadas de cultura pop, referências underground e coisas do arco da velha.

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5 comentários:

  1. Ah eu li recentemente os outros capitulos e tô gastando bastante do rumo que a história tá tomando e tô ansiosa por novos capitulos!
    Esse de hoje foi bem intenso, eu amei! E ai, terminar com essa frase foi maldade, já quero os outros capitulos!!!!!
    Adorei, parabéns pela escrita!

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  2. Não me recordo se li todas as partes, mas gostei do que li hoje. E a parte "Deus tem algum plano, certamente" é algo que eu acredito muito e sempre levo isso para a vida.

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  3. Olá, tudo bem? Que bacana, estou adorando acompanhar a história e ansiosa para saber como irá se seguir. Adorei!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  4. Oie!
    Não acompanhei desde o começo, mas gostei do que li.
    Me deixou curiosa pela continuação.
    Blog Manuscrito de Cabeceira
    Bjs.

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  5. Olá!

    Não estou acompanhando as partes como deveria, mas as que eu já li fica claro o quanto tem evoluído, as deixas para a próxima parte me deixam mega curiosa para ler a continuação. Logo eu volto para saber mais dessa história.

    Beijos

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