domingo, 28 de junho de 2020

[Conteúdo Exclusivo de Plataformas Gratuitas] Crowley - Universo Expandido: A Longa Viagem de Volta - 3ª parte


3ª Parte: Shion

 

Apesar de conseguir descansar bem mesmo não estando mais acostumada com o fuso horário latino-americano, meu sono foi povoado por estranhos sonhos.

De nenhum deles, porém, lembro com clareza. Apenas fragmentos.

O barulho de rodas vacilando. O olhar perdido em algum lugar das paisagens, a mim desconhecidas. Os olhos escuros e brilhantes de um rapaz a me espiarem pelo caminho.

Certamente eles foram causados pela lembrança inesperadamente vinda de quando papai dizia que se eu não me comportasse, El Demonio de la Capa Negra me pegaria. Foi quando, já cansada de ouvir a mesma ladainha, perguntei à minha antiga babá, uma indígena chamada Yanaina, finada há dois anos, quem era esse e que mal poderia me causar se eu fosse malcomportada. A resposta dela me marcou profundamente...

Adrian Crowley, mi lucecita. O melhor a fazer, porém, é saber o menos possível disso. Créame, mi niñita amada, certos conhecimentos podem quebrar sua mente, arruinar seu espírito. Mesmo morto, esse demônio maldito ainda pode causar grande estrago e Deus sabe o quanto a amo para não permitir que sua alma pura e generosa trilhe um caminho de trevas. Por favor, me prometa: jamais deixe qualquer um podá-la. Você é uma linda e frondosa árvore cujos frutos de amor e generosidade serão lindos e preciosos.

Desde aquele dia, jamais perguntei sobre ele embora às vezes ouvisse menções. Porque a dor nas palavras daquela tão sofrida mulher indígena me calou fundo no peito e me fez ficar muito brava com papai por usar uma lenda tão assustadora de forma tão leviana. Não que acreditasse, pois mamãe conversou comigo abertamente sobre muitas coisas quando tive idade para entendê-las, mas, eu era empática demais para ignorar o sofrimento ameríndio. Não apenas pelas referidas ações maléficas de Crowley, mas também o cruel genocídio e horrível opressão sofridos pelos povos indígenas da América graças à ambição desmedida do Império Espanhol. Isso que não mencionei outros a fazer igual ou pior.

De tal forma que eu era fascinada por História na escola a ponto de ser uma das melhores alunas da classe nessa matéria, porém, meu Q.I. muito alto me fez pular a maior parte das séries escolares. Tanto que, aos quinze anos, ingressei na Universidade de Tóquio e mesmo sendo uma amante de fatos históricos, acabei escolhendo o curso de Psicologia. Por querer entender qual era a origem de tanto mal causado pelos humanos. Simplesmente, as pessoas não agem sem motivo. Não os explícitos e documentados, geralmente envolvendo grandes grupos, mas os da mente, pois cada pessoa é movida por algo muitas vezes incompreensível para ela própria.

Às vezes, porém, me pergunto: o que realmente me move?

É tanta maldade, falta de amor, de carinho, de empatia, de compaixão, de piedade. Que por sua vez se opõem ao egoísmo, a meu ver, o pai de todos os sentimentos ruins. Tal constatação me dói o coração e inquieta o espírito.

O mais engraçado, quando penso sobre isso, é todos falarem sobre a mitológica Pandora, considerada a primeira mulher criada por Zeus, o deus grego líder do Olimpo, ter soltado todos os males do mundo ao abrir uma ânfora que jamais deveria ser tocada. Pois, dessa forma, acabam nos associando com as decisões erradas alheias e outros problemas. Razão pela qual um dos maiores problemas sociais humanos ainda prevalece mesmo todos nós vivendo na era moderna: o machismo.

Entretanto, deveríamos ter a consciência disso: qualquer pessoa com o mínimo de raciocínio lógico sabe, ou ao menos deveria saber, ser responsável por suas próprias decisões e sua capacidade de afetar as situações de modos positivos ou negativos. Mas parece ser muito mais fácil negar a própria responsabilidade. A curiosidade, queiram ou não aceitar, é um traço da humanidade. Afinal, sem ela, não teríamos saído das cavernas.

Ao mesmo tempo, porém, reconheço a falta de limites de uma parte dela, mas acredito em uma coisa: o único e real limite dos seres humanos deveria ser, e para mim é, o respeito ao próximo e aos seus direitos. Que quando são desrespeitados, seja por qual motivo for, e sempre acontece, configura-se em falta deles, tendo como resultado toda a sorte de desgraças.

Mas, de repente lembro da professora Helena, a encarregada de nos ensinar História do Uruguai e da América, mencionando uma frase de Benito Juárez...

Entre os indivíduos, como entre as nações, o respeito ao direito alheio é a paz.

Também, já com lágrimas de alegria, o discurso final de Charles Chaplin em O Grande Ditador, um filme de 1940 que assistimos em outra aula, me vem à mente. Assim, lembro exatamente do que me move: o amor, pai de todos os bons sentimentos.

Que a mim foram transmitidos por meus pais desde a concepção, pois minha mãe por anos sonhou em ter um filho e meu pai a acompanhou nesse mesmo sonho embora ambos tivessem grandes pretensões profissionais. Mas como mamãe sempre diz, de nada vale ser bem-sucedido profissionalmente se por dentro você está quebrado ou vazio. É necessário um meio-termo, o encontro do equilíbrio entre as partes, algo nada fácil, considerando a fome consumista e o desejo de ascensão social tomando conta de muitos.

Pensando nisso, enfim me sinto pronta para começar um novo dia. Sorrio ao abrir a janela e contemplar o bonito tempo no lado de fora. Um céu azul sem nuvens acompanhado de um brilhante sol brilhando lá em cima e uma brisa fresca trazendo o perfume das flores indicam a ainda presente primavera, minha estação favorita.

Me visto com uma roupa bastante simples, calço uma sandália baixa e saio do quarto para tomar o desjejum matinal no andar de baixo quando me deparo com Jorge saindo de seu dormitório. Cuja visão me angustia de uma forma que fico a ponto de chorar. O semblante é triste e sombrio. O corpo e o rosto estão magros embora se note alguma saúde ali. A cadeira de rodas me diz muito mais que todas as explicações. Inspetor Franco surge na porta:

Buenos días, Shion. Dormiu bem? Pela primeira vez em três meses, convenci meu filho a deixar o quarto.

— Não sabia que a situação dele era tão grave — respondo agoniada.

— Pelo ponto de vista físico, não. Mas no lado mental, as coisas não estão nada boas. Ele pode caminhar e falar, mas... não quer. Eu não sei mais o que fazer para ajudá-lo. No momento só consigo evitar que ele tente se matar. Tenho consciência de não ser boa hora para pedir isso, mas... ajude-o, por favor — ele diz quase implorando e eu respondo com um abraço:

— Se depender de mim, farei meu melhor, mas... o senhor precisa me falar o que aconteceu. Sem isso, não saberei por onde começar.

— Nesse momento, vamos descer para o desayuno. Depois, conversaremos acerca de eso — a maneira como ele diz a última frase me dá uma estranha sensação dele estar pensando com cuidado em como me contará. O que me faz pensar em quais terão sido os fatos cujo resultado é Jorge mudo e paralítico.

Porém, quando terminamos de descer, Franco me leva ao lado de fora de forma inesperada e no quintal, sou surpreendida por uma enorme mesa cheia de doces e salgados, a maioria dos vizinhos gritando com alegria e vindo me encher de beijos e abraços e uma faixa com os dizeres:

Bienvenida de vuelta, Shion!

Díos mío, no puedo crer que aquella chiquitunga[1] ahora es una mujer tan hermosa! — diz uma velhinha, cujo lencinho azul no cabelo me faz reconhecê-la como a paraguaia Lelia, uma florista de perto da Basílica.

— Estamos tão felizes em tê-la de volta! Não tem ideia de como sentimos sua falta! — Adela, a vizinha doceira, a qual reconheci pelo avental sempre sujo de farinha e ovo, porque com certeza fez os doces no lado esquerdo da mesa, diz com alegria, mas em seguida suspira triste:

— Também, de como lamentamos a morte do Takeshi! Aquele homem era um verdadeiro santo. Sua mãe teve tanta sorte por encontrá-lo. Homens como ele são cada vez mais raros.

Lo sé, Doña Adela. Meu pai foi um grande homem, com certeza. Ele certamente ficaria feliz em ver como estão... me recebendo de volta — sorrio e choro ao mesmo tempo ainda recebendo muitos cumprimentos repletos de beijos e abraços.

— Espero que tenha gostado da surpresa — diz o inspetor com felicidade embora seus olhos mostrem tristeza.

— Sou... muito grata. Vocês sempre foram tão bons comigo e minha família! Por muitos momentos esqueci como era me sentir acolhida de verdade — digo alegre, mas essas palavras saem do fundo da minh’alma com tristeza, pois nunca tinha sido fácil ser uma jovem com pretensões muito além do esperado pela sociedade japonesa com relação a mim. Eles esperavam que eu fosse acima de tudo uma boa mãe, esposa e dona de casa casta, mas principalmente, me submetesse às regras de uma autoridade patriarcal.

Uma Yamato Nadeshiko.

Mas nunca fui, nem serei. Papai e mamãe me quiseram, e assim minha mãe amada continua querendo, como diz uma música de Mercedes Sosa, como un pájaro libre.

Sendo um pássaro livre, voei o mais longe possível, mas nesse momento, pousei. Para ser alegremente acolhida em Colônia do Sacramento, novamente sentindo que tenho um lar. Tanto que pretendo passar a manhã comemorando com os vizinhos, pois há tempos não me sentia tão feliz e realizada.

Mas não posso olvidar que um passarinho triste e ferido agora precisa da minha ajuda para voltar a voar.



[1] Pequerrucha, no espanhol paraguaio. Mas também foi o apelido da agora beatificada María Guggiari Echeverría, chamada, como carmelita descalça, de María Felícia del Jesus Sacramentado, dado pelo pai da hoje venerável paraguaia em razão de seu físico magro.

Sobre Renata Cezimbra

Brasileira e gaúcha com os dois pés e muita imaginação na região do Prata, pois é lá que começa o universo dos Vampiros Portenhos. Onde convergem os vórtices das mais férteis referências de uma dama teimosa, que aprecia pitadas de cultura pop, referências underground e coisas do arco da velha.

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