sexta-feira, 29 de maio de 2020

[Meus dois centavos sobre...] Dever, obrigação e o direito de ser quem você é

          


            Sem dúvida, a maioria das pessoas já deve ter ouvido essa frase: Não fez mais que a tua obrigação.

            A dama teimosa aqui vai ser sincera: essa frase é um grande e sincero desserviço à autoestima, autonomia e saúde mental de qualquer pessoa.

            Vamos usar de honestidade nessa postagem: eu entendo que muita gente crie expectativas sobre uma pessoa, seja ela filho, sobrinho, primo e o diabo a quatro, mas isso não dá a ninguém o direito de dizer que uma pessoa tem obrigação de fazer algo ou ser quem não é.

            Eu nunca exatamente ouvi essa frase, mas acredito que essa é apenas um dos muitos meios de dizer que uma pessoa tem que fazer exatamente o que se espera dela e dane-se se ela se não gostar. No entanto, todo mundo esquece de uma coisa ou a ignora: mais tarde, se a pessoa vem a desenvolver algum tipo de complexo ou não ter a autonomia necessária para viver por conta própria, o único que deve levar a culpa é quem faz esse tipo de coisa com os outros.

            “Ah, mas eu só quero o bem dela.” Dane-se essa merda.

            Se você realmente quer o bem de uma pessoa, não fique dizendo que ela não fez mais que uma obrigação ou a force a cumprir uma expectativa desnecessária. Fazendo isso, ou você é muito incompreensivo ou muito sem-vergonha. Sendo a segunda possibilidade uma recorrente, porque sempre tem gente que não é capaz de compreender que cada pessoa tem um ponto de vista diferente e uma forma de ver o mundo que não necessariamente é a de quem está “botando pilha”.

            Vou dar um exemplo que muito possivelmente vai fazer muita gente vai torcer legal o nariz, mas já faz um bom tempo que preciso falar disso porque já faz horas que eu cansei de ver especulação. Mas longe de mim querer afirmar verdades absolutas sobre...

            Harry e Meghan. Sim, os agora ex-Duques de Sussex.


            Ele, filho da Lady Di e até 31/03/2020, sexto na linha de sucessão do trono britânico. Ela, uma atriz americana que já tinha se divorciado duas vezes antes de conhecer o atual marido, em 2017. Ambos agora pais de um bebê de um ano, o Archie.

            Antes que venham me dizer “ah, mas isso não é bem assim”, continuem lendo...

            Uma das minhas mais fortes lembranças da infância, e sem dúvida uma das mais tristes, foi a transmissão do funeral de Lady Diana Spencer, em 1997. Sim, eu, então uma menina de nove anos, estava acompanhando um enterro pela televisão. Provavelmente o segundo porque eu vagamente lembro de ter visto a despedida do Ayrton Senna, em 1994. Chorei porque eu amava, e ainda amo, a Lady Di mesmo passados 23 anos da morte horrível que ela teve.

            Deem um Google e verão que foi um acidente de carro a causa da morte dela, mas adivinha: a imprensa estava atrás dela incansavelmente e essa perseguição, acontecida desde muito tempo, matou não apenas a “ex-mulher do Príncipe Charles” (uma das pessoas de quem eu mais tenho raiva nesse planeta), mas uma pessoa cheia de planos e sonhos e mãe de dois filhos, um com dezesseis anos e o mais novo com doze naquela época.

            Dois meninos que acompanharam, vistos pelo mundo inteiro, o funeral da mãe, andando junto do pai, atrás do caixão dela. Olhem essa foto abaixo e pensem bem em como esses dois meninos estavam se sentindo sabendo que um planeta inteiro estava olhando para eles, acompanhando o agora presente luto pela perda da mãe. A pior parte? Eles foram forçados a isso.


            Desde então, William e Harry tiveram, cada um ao seu modo, de se conformar com a perda e dar um jeito de seguir em frente sem ela. Mas vamos focar no exemplo do Harry, o mais novo.

            Pois é aqui que eu entro de fato no título desse texto. Bem, não vou detalhar um monte de coisa sobre o Harry porque acredito que uma boa pesquisa no Google pode falar muito mais do que eu seria capaz de colocar nesse texto. No entanto, uma das coisas mais recorrentes que eu mesma vi nos últimos anos sobre ele é que ele não queria fazer parte dessa loucura que a realeza britânica pode ser. Ele nunca se sentiu realmente parte disso, tal e qual a mãe dele. Tanto é que, em 1992, Diana deu um basta no casamento dela com o Príncipe Charles e isso gerou aquele escândalo.

            Mais uma boa googleada pode falar para vocês sobre as obrigações que os membros da Família Real Britânica possuem. Os quais, na maior parte do tempo, são um absurdo atrás do outro. Incluindo até a cor de esmalte e o tipo de meia que alguém deveria usar. Isso, sem dúvida, é o de menos, mas tem coisas maiores e mais complicadas. Uma delas é que, sendo membro dessa realeza, as tuas pretensões ficam só na promessa e te fazem ter obrigações que na maior parte do tempo são apenas exibicionismo sem necessidade. Tanto é que uma pergunta começou a me ocorrer: qual é a utilidade prática de uma monarquia nos dias de hoje? Se tem um parlamento eleito por voto popular, por que se precisa de uma coroa e um rei?

            (Assunto para um próximo texto.)

            Basicamente, o Harry e a Meghan cansaram disso. Certo, eu posso estar forçando demais a barra, mas eu acredito, na verdade eu mais suponho, que em algum dia entre o ano passado e esse, provavelmente enquanto ela estava esperando o Archie, eles devem ter pensado em que ambiente eles queriam criar o filho deles. Porque a partir do momento que existe uma terceira pessoa no meio de tanta polêmica, é preciso pensar nela também. Até porque o ambiente influencia muito na criação de uma criança e algumas vezes ela acaba sendo impelida a agir de uma forma que na maior parte das vezes não condiz com a faixa etária dela.

            Além de, no caso deles, a Meghan ser dedicada desde Deus sabe quando a causas que dificilmente uma Família Real apoiaria de boa vontade por melhores que elas sejam. Não que isso seja obrigatório, mas é aquilo: a Rainha e seus familiares “representam” (ênfase nas aspas) o povo britânico (eu posso mencionar outros mundo afora cujo governo é uma monarquia constitucional). Eu preciso mencionar que muitas vezes são gente conservadora e cheia de preconceito? Não é todo mundo, mas o potencial é tenso. Sabe quando nós mulheres dizemos que “todo o homem é um abusador em potencial”? É DISSO que estamos falando.

            Para encerrar esse texto, reflitam sobre isso: o quanto vale a pena você abrir mão de algo importante na sua vida por algo que pode não dar certo? Quantas vezes você é capaz disso? Você vai poder conviver com a frustração e a dor se isso der errado?

            Lady Trotsky encerra a transmissão aqui, agora.

Sobre Renata Cezimbra

Brasileira e gaúcha com os dois pés e muita imaginação na região do Prata, pois é lá que começa o universo dos Vampiros Portenhos. Onde convergem os vórtices das mais férteis referências de uma dama teimosa, que aprecia pitadas de cultura pop, referências underground e coisas do arco da velha.

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7 comentários:

  1. Verdade. Achei seu texto coerente. Harley sempre mostrou que isso não era para ele. E aí se casar com a Megan os dois acaram juntando essa tensão toda. Acredito que agora eles vão conseguir viver a vida que gostariam

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  2. Oi, Renata!
    Preciso começar o meu comentário dizendo o quão incrível está o seu texto.
    Quero comentar do fim para o começo.
    A questão da família real é muito doida, porque, como você mesma disse, para que serve hoje um governo monarquista? Para nada e por causa disso, algumas pessoas podem acabar se ferrando, como parece ser o caso do Harry e principalmente da Megan - o que essa mulher vem sofrendo na mão dos jornalistas e da família real é duro. O que a própria princesa Diana sofreu. Minha mãe acredita fielmente que foram eles próprios que mataram a princesa.
    Sobre a primeira parte, eu concordo com tudo o que você disse.Só acho que essa ideia muitas vezes está impressa tão profundamente na sociedade que algumas vezes nem percebemos que estamos colocando uma pressão desnecessária nas outras pessoas.
    Ótimo texto!
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com/2020/05/resenha-caca-livro-2.html

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  3. Olá, tudo bem? Nossa, que texto bacana, você levantou questões bem interessantes, que me fizeram refletir bastante. Ótimo texto!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  4. Oi, tudo bem?
    Vou começar confessando que discordo muito em relação a questão do príncipe Harry e da Meghan, principalmente no que diz respeito à família real. Pode até não ser claro para nós aqui no Brasil a importância da família real para o Reino Unido, mas acredite que eles são fundamentais lá. Além do impacto econômico gigante, sendo fundamental no turismo do Reino Unido (a venda de souvenirs do casamento do príncipe William movimentou milhões e Londres se tornou a cidade mais visitada do mundo no ano que o príncipe George nasceu), a família real é um símbolo nacional muito forte e que só quem vive lá é capaz de entender. Então, não acho que não cabe a nós, que não vivemos lá, não conhecemos a cultura e história deles, não acompanhamos o papel desempenhado pela família real (o trabalho deles não se resume aos grandes eventos que vemos no jornal), questionarmos a importância e o impacto da família real para eles. E, com relação ao príncipe e à Meghan, acho que se não estavam felizes, tinham que sair mesmo. A instituição família real não iria mudar só porque a Meghan não se adaptou, porque tem muito mais coisas envolvidas. Então, eles que saíssem e fossem busca do que queriam para a vida. Da minha parte, sem conhecer nenhum dos dois e nem saber o que estava por traz de suas escolhas, não posso condená-los e nem colocá-los como vítimas. Eles fizeram uma escolha e vão viver de acordo com as consequências dela.
    Mas concordo totalmente com essa questão de dever e obrigação. Cada um tem seus limites, sua forma de ver a vida, de saber o que te faz bem e não podemos impor nossas expectativas a outra pessoa.
    Beijos!

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  5. Oi Renata!
    Acho que as escolhas que fazemos, vai muito refletir em nosso futuro.
    Sobre a realeza britânica, eles tem seus papeis a seguir acho muito trabalhoso a vida que eles tem mostrando apenas o que é obrigação e etiqueta. Deve ser difícil seguir as regras, o casal Harry e Meghan dou os parabéns por se imporem e quebrar as regras que é uma tradição.
    A família real que continua o legado tem meu respeito pois acho que deve ser entendiante não fazer exatamente o que quer. Deve uma vida reclusa, exaustiva e monótona. Parabéns pelo seu post me deixou muito pensativa sobre o assunto, bjs!

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  6. Olá!!!
    Eu acho que nossas ações são lições para que no futuro não cometamos o mesmo erro, mas também experiências que constrói quem somos. Algumas ações gerarão uma reação em cadeia, mas aí cabe a nós para lidar com elas.
    Eu acho que sozinhos não conseguimos lidar com tudo e por isso pessoas ao nosso redor sempre são importantes para nos apoiar se estamos certos ou puxar nossa orelha mesmo quando estamos errados.
    Parabéns pelo post por fazer a gente refletir sobre.

    lereliterario.blogspot.com

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  7. Eu só posso aplaudir o texto e assinar embaixo. Tenho até medo de comentar e estragar algo hahahaha
    Ainda mais em relação a família real

    Sai da Minha Lente

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